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terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Eu, Alberto e a chuva


Estávamos eu e o Alberto sob a chuva.

Estávamos ali, surpreendidos pelo temporal. Poderíamos retornar para o aconchego da varanda, mas não; ali estávamos, ali ficamos. Cada um em seu processo contemplativo pessoal.

Quebrando o silêncio íntimo em que nos submergira aquele marulhar de gotas estalando na relva, pensei no cuidado de Deus... Em como ele amava sua criação, como regava as plantas, saneava a atmosfera, reabastecia os rios, os lençóis freáticos... A chuva era a música da bondade de Deus, uma sinfonia cujos acordes tocavam o solo e molhavam os ouvidos com amor... 

Alberto, em silêncio, braços estendidos como se desejasse ampliar a superfície do corpo para receber cada gota de chuva, não se movia.

Depois de alguns instantes, ambos absortos naquele devaneio íntimo, meu amigo comentou:

- É muito bom quando a chuva bate no corpo. As gotas caem com uma força macia sobre  a gente. Quase nada neste mundo cai com uma força macia sobre o corpo da gente...

Foi então que me dei conta de que a sinfonia molhada que eu escutava era também macia, uma sinfonia macia, molhada e generosa, de Deus... 

E sob aquela percepção do Alberto, tão mais concreta e sensual que a minha, senti que tudo estava absolutamente correto, que a chuva era forte e macia, mas que também era chuva de amor Divino. 

E esse entendimento - na verdade, essa certeza interior - me trazia paz. Imensa paz. Tão grande quanto as maneiras que existem de sentir a chuva. Tão grande quanto a liberdade de senti-la.

De fato, naqueles instantes em que a chuva forte já se fora e tudo que restava no mundo era uma tépida garoa, contentava-me saber que Deus permitia a cada um sentir e pensar como quisesse. Contentava-me saber que tudo estava certo. 

E ali estávamos e ali ficamos, aos raios do sol que sempre vem após a chuvarada.

Gilberto de Almeida
09/01/2018


quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Eu, Alberto e os duendes de Papai Noel


Despertei bem cedo e olhei para o Alberto, que descansava sobre o criado mudo.

Ele estava literalmente verde. 

Para aqueles que conhecem o Alberto, sabem que essa não é, nem de longe, sua aparência habitual. Olhos claros, cabelos também claros (mas que, dependendo da iluminação, parecem acastanhados) e, sobretudo, uma testa muito branca, muito alva. Nada de verde.

Mas, em matéria de Alberto, nada me surpreende. Se ele estava verde, estava. Ponto. 

No entanto, não pude evitar certa divagação, inspirado no matiz esmeraldino do "facies" de meu amigo. De relance - desviando um tanto do caminho, tenho que reconhecer! - lembrei-me de Jennifer Connelly. 

Mas foram os duendes de Papai Noel que tomaram posto nos celeiros de minha mente. Embora não sejam verdes (nem os duendes, nem minha mente). Foi assim, aparentemente sem motivo, que perguntei:

- Alberto, você sabe a estória dos duendes do Papai Noel?

E ele, com a mesma simplicidade (e idêntica profundidade) de quem pergunta "o que é o número trinta e quatro?", respondeu:

- Mas quem é Papai Noel?

Pensei um pouco. 

Pensei um pouco mais.

Decidi que o número trinta e quatro tanto existe quanto não existe. Que é um conceito. Que é abstrato. Mas não consegui avançar muito na questão do "Papai Noel".

Dei uma prescrição de Ferrum metallicum para o Alberto e decidi tomar uma ducha!

Gilberto de Almeida
29/11/2016


domingo, 13 de novembro de 2016

Eu, Alberto e a árvore de natal


De uns tempos para cá, eu e o Alberto andamos nos falando menos.
A amizade persiste, é claro, mas nossos assuntos parecem diferentes,
nossas crenças parecem mais distantes...

Na manhã de hoje, no entanto, quando dirigia por certa floresta de pinheirais, lembrei-me do Alberto.

Saquei-o do porta-luvas, desculpei-me pela longa ausência e perguntei-lhe, só para iniciar conversa, inspirado pela paisagem ao derredor:

- Alberto, você já providenciou uma árvore de natal?

O Alberto, como se houvéssemos nos falado ontem mesmo - e como é da sua natureza, diga-se de passagem - sem mais delongas, principiou a explicar-me, no seu jeito característico de falar:

"Há uma árvore no quintal da minha casa.
Mas não fui eu quem a plantou.

Então ela não é minha,
é da natureza.

Mas eu não preciso que seja minha,
porque não preciso de nada
que não tenha em mim mesmo.

Mas que aquela árvore,
lá no quintal da minha casa,
é de natal, eu sei que é, sim.

Porque toda árvore neste mundo,
toda árvore plantada no chão
e que vive da seiva da Terra
é de Deus, nosso pai,
e é de Nosso Senhor, Jesus Cristo."

Aí, enquanto dirigia, olhos fixos na estrada, mas com atenção no silêncio a que se entregara o amigo a meu lado,  pensei que deveria voltar a conversar mais frequentemente com o Alberto, porque, afinal de contas, em meio a nossas concordâncias e diferenças, sempre havia um quê de poesia a escapar da conversação, e isso, no fundo, é o que, para mim, sempre valeu a pena.

Gilberto de Almeida
11/11/2016

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Eu, Alberto, os livros e a natureza

Não é que minha amizade pelo Alberto houvesse esfriado, longe disso!
Apenas seguíamos caminhos um tanto diferentes nos últimos meses.
Porém, ontem à noite, tive saudade.
Procurei em todos os bolsos, procurei na mochila que sempre me acompanha, mas nada!
A evidência era óbvia: 
- Depois de todo esse tempo, eu perdera o Alberto de vista.

Amanheceu outro dia e, como numa resposta à minha evocação involuntária da véspera,
foi o Alberto materializando-se em meu pensamento
até sentar-se à mesa posta
para uma bem-vinda conversa ao café da manhã.

Quem nos conhece, sabe que nem eu nem o Alberto somos afeiçoados à tagarelice sem proveito.
Assim é que nossa conversa transcorreu em agradável mutismo,
mas em inefável contentamento até que o Alberto me perguntou:

- E as leituras?

- Ando lendo, ando lendo!

Não me dei conta de que acabara de dizer uma verdade quase literal. 
Nesse intervalo de ausência involuntária a que eu e Alberto, mutuamente, nos consagráramos,
vinha eu lendo mais e mais. Parecia que, de algum tempo para cá, eu despertara para a consciência a respeito da minha estupenda ignorância. E a vontade de aprender dominava-me completamente.

Em algumas ocasiões - isso não é exagero! - devorava meus livros enquanto caminhava pelas ruas e,
o que é mais grave, enquanto dirigia em meio ao trânsito congestionado de São Paulo. Aproveitava também os intervalos entre um e outro atendimentos aos pacientes no trabalho, os momentos no Trem ou à espera dele, os intervalos das refeições, as filas dos bancos... Mas, curiosamente, reparava, poucas ou nenhumas outras pessoas aproveitavam o tempo da mesma maneira! Será que já sabiam tudo?

- Lá no campo, não temos filas! - Interrompeu o Alberto, fazendo-me retornar ao plano físico, do mundo de meus devaneios.

- Mas você lê? - Perguntei - sem atinar de imediato que meu amigo parecia ter captado meu pensamento.

- Leio a Bíblia. E leio a natureza.

- E você acredita no que lê nos livros?

- Acredito, sim!

Foi assim que, inevitavelmente, surpreendi-me a considerar que meu amigo Alberto precisava urgentemente de outras leituras...

E, é claro, considerei também que eu necessitava de muito mais natureza...


terça-feira, 3 de setembro de 2013

Papo cabeça com o Alberto

O Alberto andava meio esquecido.

Dizendo melhor, eu é que andava meio esquecido do Alberto.

Mas eis que hoje ele me salta de dentro da mala e diz:

"- Eu vi seu poema!"

Assim, sem mais, depois de tanto tempo calado, até assustei! Mas me refiz, como se tudo estivesse na mais completa normalidade.

- Qual poema? - Perguntei!

"- O de ontem! 
O dos rabiscos."

Ah! Estava fácil! Ontem só escrevi um poema: - o dos rabiscos!

- "Deus em Tudo", você quer dizer!

"- Sim. Esse mesmo. 
Por que o batizou de 'Deus em Tudo'?"

- Porque, em primeiro lugar, eu acredito que Deus, de fato, está presente em tudo. Depois, porque aquilo é um poema concreto, e lá se leem as duas palavras: "Deus" e "Tudo"!

O Alberto refletiu por alguns instantes e perguntou:

"- Só vejo rabiscos! 
Porque você me diz que há palavras
Onde só existem rabiscos?" 

- Jura que você não enxerga as palavras?

O Alberto calou-se, pareceu meditar profundamente, e não respondeu minha pergunta!

"- Deus não está em tudo! - Emendou - 
Só na Natureza.
E Deus não está na natureza.

Você e os outros poetas místicos 
Procuram ver nas cousas, mais do que as cousas são. 

Os poetas místicos são filósofos doentes,
E os filósofos são homens doidos.

É loucura viver dessa maneira,
Porque viver dessa maneira
É como um barco de papel
Que uma criança faz
E navega na superfície dum lago.

Ele fica flutuando lá em cima
E pensa que sabe o que acontece no interior do lago,
Mas nunca viu os peixes,
Nem os filhos dos peixes
Nem nada que existe na profundidade do lago.
Só imagina!

Quando este barco ver o fundo do lago
é porque afundou.

Ele navegou sempre, 
Mas nunca soube o que existe.
Só imaginou!"

Ah! Eu fiquei intrigado com esse desaforo do Alberto!
Intrigado como se eu fosse um barco de papel a navegar no fundo do lago! 
Mas respondi à altura:

- Sabe, Alberto,
não entendo como podemos ser amigos!
Eu penso exatamente o contrário. 
Para mim, quem só vê o que está ao alcance dos olhos, 
que só acredita naquilo que pode tocar, 
esse é quem está navegando na superfície,
esse é o barco de papel, 
restrito ao horizonte limitado do seu lago,
e destinado a naufragar.

O poeta místico, meu caro,
não é como o barco de papel na superfície do lago;
é, sim, como a criança que fez o barco
e que, na sua inocência,
ali enxerga um imponente navio.
Ela o torna real em seu pensamento
e, mais tarde, na sua vida.
Porque é isso que o pensamento faz!

O Alberto franziu a testa, numa expressão de quase contrariedade, fazendo um silêncio interminável. Por fim, abusando da sabedoria incompreensível que lhe é peculiar, saiu-se com esta:

"- Gosto de Crianças!"

E continuamos amigos.

Gilberto de Almeida
03/09/2013


terça-feira, 4 de junho de 2013

Eu, Alberto e o trabalho!

Há algum tempo não trago o Alberto comigo,
nem no bolso,
nem no pensamento.

Na verdade eu havia perdido o Alberto,
mas neste sábado o encontrei.
Ele estava perdido numa mala de viagem.

Aproveitamos para matar a saudade, coisa e tal.

Depois ficou um vazio, um silêncio
(o Alberto e o silêncio mantêm uma inabalável intimidade!)...

Aproveitei e lhe contei:

na sexta-feira, 
exatamente após um feriado e antes do fim-de-semana,
estava eu lá pelas últimas horas da tarde,
no final do expediente,
clínica médica vazia,
um aroma de tédio vagando pelos corredores,
como eu próprio.

E nesses corredores vazios encontrei alguém que me disse:
- Está quase terminando, heim, Doutor?

Apenas concordei. Sim, o expediente estava terminando.
Entre um feriado o o final de semana, um período de trabalho, e já estava quase no fim!
Não custava nada aguardar com paciência aqueles poucos minutos que restavam!

Mas depois, quando a cabeça estava ainda mais vazia,
mais vazia tanto de trabalho quanto de utilidade, 
pensei:

"Ah, que bom seria se o expediente da vida toda
também estivesse para se encerrar...
Que bom seria se este aroma de tédio também estivesse no seu ocaso,
que bom se o sábado - esse esperado despertar de nova vida -
também estivesse a algumas horas de distância!"

Foi nesse instante que o Alberto, com sua costumeira singeleza, interrompeu meu devaneio:

"- Por que você não para com essa história de ficar pensando?
Você deveria pensar menos e trabalhar mais!
Quando a gente trabalha, o tempo passa mais depressa!"

E dessa vez tive que concordar com o Alberto.

Bora lá trabalhar, então!

Gilberto de Almeida
03/06/2013



domingo, 7 de abril de 2013

Eu, Alberto e o computador

Não sei por que motivo decidi que o Alberto deveria ter um computador.

Alguns bits a menos no meu cérebro, claro, para pensar uma coisa dessas; mas o fato é que o levei à loja de eletrônicos para comprar um!

Porém o inusitado começou, bem... digamos, começou o tempo todo!

Imaginem a expressão de espanto que se apossou da fisionomia do Alberto, em pleno "Shopping Center", enquanto ele pousava aqueles olhos azuis num mundo de mármores e granitos, de vidros espelhados, elevadores panorâmicos, vitrines glamourosas e gente vestida muito além da simplicidade bucólica com que ele estava acostumado...

Quando percebeu uma senhora conversando com outra e ambas dirigindo-se a passo acelerado rumo a uma porta automática, tive que conter o Alberto, pois ele se destrambelhou em direção às duas para tentar impedir que se chocassem contra a parede de vidro!

Mais adiante foi a escada rolante que o apavorou: o pobre - que o máximo que já havia experimentado para facilitar sua costumeira locomoção pedestre - fora o uso de um carro de bois ou, raramente, uma charrete, relutou bravamente contra as minhas tentativas de convencê-lo a embarcar naquela esteira enfeitiçada e, no final, foi ele quem me convenceu a subir pelas escadas convencionais.

Creio que ele esteve em pânico durante toda sua permanência no "Shopping"! As pessoas, apressadas, pareciam não o notar, chocando-se conosco aos trambolhões. Era um acúmulo fenomenal de informação e estresse para um homem do campo, que nunca viera a São Paulo!

Quando, finalmente, chegamos à loja de eletroeletrônicos, meu amigo estava à beira do colapso! E isso só piorou! Tudo naquela loja era impressionante demais, miraculoso demais! Mas eu, sensível como um poste, e obstinado como uma mula, estava decidido a comprar o tal computador.

Aproximou-se o vendedor a falar, entre outras coisas, sobre "gigabytes", memória RAM, portas USB, "Blue Ray", "Ethernet" e "Windows". Alberto não entendeu nada, obviamente! Arriscou perguntar o que era "Windows" e eu, tentando traduzir para o Português, só piorei as coisas, pois, em parte alguma daquela máquina, o Alberto via "janelas" (peças raras naquele "Shopping", aliás, pelas quais o Alberto vinha me perguntando desde que adentráramos o pavilhão de consumo.)!

Mal compreendendo o que era o tal computador, começava o Alberto a me questionar sobre o motivo pelo qual eu desejava que ele possuísse um:

- Para você escrever sua poesia... - Retruquei, a essa altura já sem muita convicção!

Alberto fitou-me demoradamente; olhou para aquela geringonça luminosa, cheia de botões e sem nenhuma janela; encarou os olhos do vendedor, que insistia em ignorar o meu amigo...

Depois tirou um bloco de papel do bolso traseiro de sua calça, um lápis que estava no bolso da camisa, não disse uma palavra sequer e pôs-se a rabiscar. Após alguns instantes, arrancou a folha de papel em que escrevera e me entregou.

O que eu vi naquela folha de papel foi um desenho rudimentar, mas muito significativo, de uma casinha em cima dum outeiro, com duas janelas desproporcionalmente grandes. Pouco abaixo, ele escrevera:

- "poesia não precisa ser escrita."

E, se essa única frase escrita a lápis, abaixo de uma casinha de janelas grandes em cima dum outeiro, não era a mais evidente comprovação de si mesma, eu já não sei em que acredito!

Foi assim que desisti da ideia absurda de comprar um computador para o Alberto.

Foi assim, também, que entendi - por certo, erradamente - que algumas poucas coisas na vida não se deve tentar melhorar, sob o risco de ficarem piores!

Gilberto de Almeida
07/04/2013

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Eu, Alberto e a nuvem

Esta manhã o Alberto entrou no meu pensamento
quando eu vi uma nuvem
no formato de um crocodilo,
só que de um crocodilo
do gênero Gavialis.

Já vi muitas nuvens na minha vida,
a maioria sem formato algum.

E vi nuvens com forma de cachorro, de porco, de urso, de rinoceronte
e até de crocodilo, também,
porém nenhuma eu tinha visto antes
no formato de um crocodilo do gênero Gavialis,
aqueles do focinho finíssimo
que mais parece um bico comprido.

Mas se fosse somente isso, não teria significado
e de nada serviria;
em nada mudaria o meu dia!
A verdade verdadeira daquela nuvem
é que ela estava em paz
e era mais bonita do que as outras.

E eu pensei então
que aquela paz
e aquela beleza
eram somente porque a nuvem se bastava a si própria
e não tinha expectativa;

dali a um minuto poderia não mais ser um crocodilo;
poderia ser uma cobra
ou um cavalo!

Então tive certeza
de que aquela paz
e aquela beleza
eram somente porque a nuvem se bastava a si própria
e não tinha expectativa;

nada ansiava, nada queria do mundo,
não necessitava de atenção ou de afeto,
nem se importava com isso,
não pensava em amores improváveis ou impossíveis
e algum dia
choveria.

Gilberto de Almeida
13/02/2013


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Eu, Alberto e a Saúva















Era uma única saúva
que levava em seu ferrão
(zonza, zonzinha e cambaleando)
uma folha de árvore
do tamanho dela própria.

Eu sabia que aquele esforço

iria terminar nalguma câmara
no formigueiro
para depois recomeçar!

E a pobre da saúva
que trabalhava duro
para o benefício da sua comunidade,
não era nem mais triste,
nem mais feliz por causa disso.

Pensei, então, 
que caridade e abnegação
eram como a vida da saúva:

- levar uma folha de árvore do tamanho da gente
para o formigueiro
e não ser mais triste nem mais feliz por causa disso,
mas apenas ser.
Porque é assim que se vive
ou é assim que se deveria viver.

Mas o Alberto,
que escutava meu pensamento,
não pensou no formigueiro,
nem pensou na comunidade
e, sereno, me contou

Que a saúva não devia ser caridosa nem abnegada,
Porque Deus não fez os animais com esse tipo de sentimento ou de pensamento
De serem caridosos ou de serem abnegados,
Mas que ela carregava aquela folha sem sentir e sem pensar
E que a sua beleza era essa mesma beleza
De carregar folhas sem sentir e sem pensar
Apenas porque carregar folhas,
É isso mesmo que as formigas fazem!

E eu olhei para o Alberto
e soube que ele tinha razão,
mas que eu também tinha,
porque nesta vida tudo que nós fazemos
- humanos e saúvas -
é carregar nossos fardos;
só que nós podemos pensar e sentir
e ser caridosos e abnegados,
mas as saúvas, não;
no entanto, mesmo não podendo ser caridosos e abnegados,
muitas vezes esses pequenos insetos o são
bem mais que eu
e bem mais que nós!

Gilberto de Almeida
01/02/2013



segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Eu, Alberto e o filtro violeta























Nem todos sabem que o Alberto,
quando não está na maleta, nem no bolso
o levo comigo em pensamento.

Assim, quando certa manhã, ao olhar para o mar e para o céu,
me deparei com aquelas cores estranhas,
o Alberto, de dentro do meu pensamento, percebeu e disse:

- Sabes que eu não compreendo a tecnologia,
mas porque não experimenas remover o filtro violeta.
Aí verás as cores como elas são!

E essa frase me soou enigmática, por dois motivos:
- porque vinha do Alberto;
- e porque eu estava vendo aquela cena a olho nu!

Gilberto de Almeida
17/12/2012

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Eu, Alberto, a primavera e o amor























Diariamente, saio para caminhar pouco antes das seis da manhã.
Hoje, como não o fazia há algum tempo, levei o Alberto.

Não havia nenhum motivo consciente para não o haver levado comigo antes. Apenas não o levara. Sem motivo. Esquecimento. Mas hoje lembrei.

E fomos caminhando e conversando.
Aproveitei para procurar compreender um pouco mais a respeito daquele personagem complexo.

Todos sabem que o Alberto afirma aos quatro ventos
que ele não pensa. Que seus pensamentos são o seu tato, sua visão, sua audição, seu paladar ou alguma coisa assim.

Pois foi por isso que durante a caminhada perguntei:

- Amigo, como é essa coisa de não pensar?
Outro dia mesmo, você não chegou a cavalo a Santorini?  - lembrei - E não teve que planejar a viagem? Não teve que pensar, para que pudesse conseguir concretizar seu intento de ir até lá?

Alberto, que hoje estava especialmente falador, iniciou pacientemente:

"De verdade mesmo,
(E falo dessa verdade cristalina como os dias ensolarados),
nessa mesma verdade que o sol ilumina todos os dias 
está a razão de eu não pensar.
Porque as cousas são o que são,
As cousas são como as vemos quando o sol as ilumina
E não como queremos.

A verdade é saber ver e ouvir e sentir,
Saber ver e ouvir e sentir, quando se vê, se ouve e se sente.
Saber ver e ouvir e sentir sem estar a pensar
e saber pensar sem estar a ver e ouvir e sentir.

A verdade é saber pensar apenas quando é preciso pensar.
É saber pensar quando se precisa arrear um cavalo
Para o fazer direito.

Mas não pensar sobre o vento quando galopamos,
Porque a brisa é apenas a brisa
E as cousas são o que são
E não há por quê e nem para quê.

Essa primavera pela qual passamos,
[passávamos por uma primavera naquele momento]
Por que a vês e ela é bela?

Não é importante pensar nisso.
A vês e ela é bela.
Porque é assim que as cousas da natureza são, quando se vê.
A sua beleza está em ali estarem
E em todas as cores que têm
E em todos os perfumes.

Para que ver e sentir e criar uma filosofia?
Para que pensar se as primaveras têm flores rosas ou azuis?
Para que inventar causas
E consequências?

Ora! Queres imaginar que as primaveras estão ali por algum motivo?
Queres ainda pensar
Que o universo te está a dar sinais?

A imaginação e a filosofia sobre o que não é mais do que é,
é sobre isso que não penso."

E assim, pensando eu sobre tudo aquilo em que o Alberto não pensava mas me dissera, acreditei, desacreditando.

Achei que estava compreendendo um pouco mais a respeito daquele personagem complexo mas que cabia no meu bolso.

E assim, fazendo uma espécie de heteropsicografia, acreditei, acreditando,
que mesmo sendo fruto do desvario de outro poeta,
todo poeta é um fingidor.

Gilberto de Almeida
07/12/2012

sábado, 1 de dezembro de 2012

Eu, Alberto e o Vento


















Certo dia eu estava no Havaí.

Dessa vez  eu havia levado o Alberto e mais ninguém,
nem mesmo a Jennifer Connelly ou a Elettra Rossellini.

E eu pensava sobre o vento.
Pensava que o vento era a força com que Deus arrumava (e desarrumava) a sua casa.

Ele devia, por pura diversão, criar ondas de todos os tamanhos,
mudar as nuvens de lugar
e balançar as folhas das palmeiras
- como as pessoas fazem com os móveis em suas casas,
quando se cansam de como estão.

Da mesma forma, o vento deveria ter sido criado para Deus rearranjar a areia na praia
e as dunas no deserto.

- E, você, Alberto, o que acha do vento? - Perguntei ao amigo que não pensava, mas escutava muito bem meus pensamentos.

- Acho muito bom quando ele passa pelo meu rosto e pelo meu corpo.

E estatelou-se numa espreguiçadeira com um inenarrável sorriso de felicidade estampado naquela sua cara de pipa.

Nesse momento, diante da alegria pueril do meu amigo, fiquei feliz por ele e percebi - ou melhor, senti - que, às vezes, mesmo sem a Jennifer Connelly ou a Elettra Rossellini, esse tipo de alegria sem compromisso com nada é o que vale a pena na vida.

Gilberto de Almeida
01/12/2012


sábado, 24 de novembro de 2012

Com Alberto, meio misturado, meio inteiro

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Hoje eu e o Alberto nos misturamos, não sei como!
Eu sei que, de repente, eu estava a pensar como ele,
Pensando em cousas e não em coisas.
Estava a pensar como ele,
A pensar com os olhos e olfato, e o paladar, mas sem pensar.
 
E olhei pelo vão duma cerca e vi um pedaço de mundo
Que para mim era o mundo inteiro
Porque era o pedaço de mundo que eu podia ver.
E esse pedaço de mundo era um belo lago e árvores e flores e um banco vazio
Que tinha toda a grandeza e a beleza de serem um belo lago e árvores e flores e um banco vazio.
 
Como era bonito ver o mundo inteiro naquela brecha de cerca!
Como era bonito saber que o mundo inteiro cabia ali,
Porque era tudo que eu via, e meu mundo era o que eu enxergava,
Mesmo eu sabendo que para os outros era apenas um pedaço de mundo
E não o mundo inteiro.
 
Mas como não havia somente o pensamento do Alberto,
Como o meu pensamento também estava junto,
A idéia de que o pedaço de mundo que eu via
Fosse o mundo inteiro,
Mas também fosse somente o pedaço de mundo
Que eu via através de uma brecha na cerca
Me fez continuar a pensar
Com a outra metade do pensamento
que não era do Alberto, mas era minha.
 
Pensei que meia vista pudesse conter uma paisagem inteira;
que, por meia passagem, pudesse passar um camelo;
que meia dúzia era qualquer quantidade pouca, mas suficiente, e que não era seis;
que meio termo podia ser melhor que as últimas consequências;
que meia lua podia ser a lua inteira;
que meio fio não tinha nada de metade, mas era a calçada inteira;
que metade de um amor sou eu e a outra é você, mas ambos somos inteiros...
 
E aí eu fui pensando e pensando e pensando,
cada vez mais querendo entender que tudo que era meio continha algo que era inteiro
e meu pensamento foi ficando cada vez mais longe do pensamento do Alberto
e acabei por pensar num soutien meia-taça
e aí parei de pensar no que era metade
e passei a pensar no que era inteiro!
 
Gilberto de Almeida
24/11/2012
 
 
 
 

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Eu e Alberto, sem vampiros, nem lobisomens



Para quê levar o Alberto ao cinema?
Fiz essa pergunta em meu íntimo, muito antes das imagens de vampiros e lobisomens começarem a aparecer na tela.

Foi por isso que mantive o Alberto no bolso e de lá ele não saiu até que a seção terminasse.
Por que mostrar a ele, que tanto acreditava no que via, aquilo que, no seu vilarejo, jamais haveria de ver?
Por que mostrar justo a ele, que já era feliz sem isso?

E o filme acabou. E o Alberto saiu do bolso.

E não houve maneira de fazê-lo entender que raios era o tal do cinema!

Gilberto de Almeida
21/11/2012

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Eu e Alberto, na cafeteria

Faz tempo que não explico: eu sempre trago o Alberto no bolso, ou na maleta, ou no pensamento. Exceto, talvez, quando estou em Santorini, ou quando estou em companhia da Elettra Rossellini (ou de alguém tipo ela)!

Nesse dia eu estava na cafeteria, no Shopping Center, em São Paulo, pouco antes do horário do cinema. Deixei o Alberto sobre a mesa e pedi dois cafés expressos, com acúcar.

Ele já tinha tomado café antes, claro, mas não esse. Não o expresso. E não com açúcar. Somente com açúcar mascavo.

Vieram os dois cafés, água com gás, biscoitinho.

E o Alberto adorou.
Ele quis mais um. E mais outro. E mais água com gás. E mais biscoitinho!

E saiu da cafeteria querendo voltar.

E eu me senti muito mal.

Como se tivesse oferecido maconha a uma criança de cinco anos.

Gilberto de Almeida
20/11/2012



Com o Alberto, em Santorini

 
Tem gente que é mala, mesmo
(e não digo isso a esmo)!
 
Pois, estava em Santorini
- sem o Alberto - um belo dia
desfrutando a companhia
tipo Elettra Rossellini
quando o bem-bom foi-se embora.
 
Eis que me viro e, lá fora
- pra provar o que eu lhes falo
(tem gente que é mala, certo?) -
de repente surge o Alberto
desmontando do cavalo!!!
 
Então, por favor, me fala:
- Esse Alberto, não é mala?
 
Gilberto de Almeida
20/11/2012
 
 
 
 

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Desconstruindo um soneto de outono (com Alberto)


Nas cores e matizes da estação
do outono, ao reparar, me desconcerto.
Estúpido, imagino que elas são
oásis, que me encontro no deserto.

Nas cores e matizes vivo, então,
na breve epifania com que flerto,
mas, tolo, não encontro explicação
até que me aparece, astuto, o Alberto:

- Por que dar forma e imaginar a poesia?
Por que a métrica? Para que as rimas?
Pára agora mesmo com esse soneto!

Diante do meu olhar assombrado, ele arremata:
- Queres poesia?
Então apenas tira os sapatos
E caminha descalço sobre as folhas de outono.

Gilberto de Almeida
19/11/2012


segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Sem o Alberto, em Santorini




Amizade é tudo, certo?
Não! Nem tudo, meu amigo!
 
Pois se eu fosse a Santorini
não levaria o Alberto
- por mais que não pegue bem!
 
Mas se eu fosse a Santorini,
quem levaria comigo
no mínimo ia ser alguém
tipo a Elettra Rossellini!
 
Gilberto de Almeida
11/11/2012
 
 

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Eu, Alberto e a cerca (ou seria o trilho de trem?)

Quando garoto eu via a cerca
na fazenda do avô do meu amigo,
tão longa, mas tão longa, que parecia um trilho de trem.
E então eu imaginava isso.
Que a cerca deveria ser um trilho
para algum trem mágico e misterioso
que andasse deitado...

- Muito bom, disse o Alberto, que andava bisbilhotando o que eu escrevia!
O único mistério é pensares em mistérios.
Por que não te contentas com o fato
De que havia uma cerca na fazenda do avô do teu amigo?
Por que tens de inventar mistérios para ela?
Não será ela tão boa de se tocar, por ser cerca?
Não será boa o suficiente a sua finalidade de ser cerca?

- Ora, Alberto - argumentei (nesse dia eu estava de bom humor!) - é natural a gente imaginar as coisas!

- Natural? Vou lhe fazer uma pergunta.

...

- Por acaso já viste um trilho de trem?

- Claro que sim...

- E por acaso ficaste a iimaginar que esse trilho fosse uma cerca?
E que houvesse uma enorme fazenda invisível erguida no ar e que essa cerca cercasse?

...

(pior é que já, mas resolvi guardar o Alberto no bolso e deixar quieto!)

Gilberto de Almeida
09/11/2012

domingo, 4 de novembro de 2012

Eu, Alberto e a Rolinha

Hoje pela manhã saí a caminhar com o Alberto.
E quando a gente caminha, além de caminhar, a gente faz duas coisas:
A gente contempla
e a gente pensa.

E às vezes o pensamento da gente entra num turbilhão de coisa alguma
e a gente sonha.

Foi quando eu lembrei que o Alberto estava comigo
e quiz saber como seria
não sonhar.


Olhei para o Alberto e ele, que não pensa, mas entente meus pensamentos,
disse:

- Está vendo aquela rolinha no topo do muro?
Pois sou como ela.
Ela sabe que existe o vento
Porque o vento toca suas penas.

Ela não pensa em voar, mas quando quer
Bate as asas e, com a impulso do vento, voa.

Gilberto de Almeida
04/11/2012