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segunda-feira, 9 de abril de 2012

Nós dois

(Guilherme de Almeida)

Chão humilde. Então,
riscou-o a sombra de um vôo.
"Sou céu!" disse o chão.

Hora de ter saudade

(Guilherme de Almeida)

Houve aquele tempo...
(E agora, que a chuva chora,
ouve aquele tempo!)

Infância

(Guilherme de Almeida)

Um gosto de amora
comida com sol. A vida
chamava-se "Agora".

domingo, 8 de abril de 2012

Pequenez

Profunda noite cobre - como o mar, o abismo
- a Terra, altar do amor e da tragédia humana.
E cuida bela, imensa, de ocultar da fama
virtude, inteligência, força e heroísmo.

A noite intensa e nua, em seu determinismo
descobre o esplendor de gigantesco drama:
a pequenez do homem! Ponderada, clama
por contrição, amor, verdade e altruísmo.

Trilhões de estrelas vivas, em constante amparo,
olhares diamantinos a vibrar, serenos,
reprovam-me, do alto, o proceder avaro.


Percebo, então, o abismo escuro dos venenos

do orgulho e do egoísmo e, sem querer, reparo
o quanto hei de crescer - e amar! - para ser menos...

Gilberto de Almeida
08/04/2012

sábado, 7 de abril de 2012

Poema para Maria

José Gilberto Tristão de Almeida
(data desconhecida)


Maria, de graça e de encantamentos formada,
teu riso é o abraço dos olhos que beijo,
teus olhos, perfumes das faces rosadas,
teu corpo a fremir é o gracioso desejo
que mal se disfarça nos lábios vermelhos.
Tua alma é o unguento de terna pureza
com que me perfumo de amar-te e querer-te.
O amor, em teus olhos, é doce estranheza
de lentos mistérios curvados, rezando
a maga oração de indizível beleza.
A doce ternura, suave aconchego
com que a timidez se despede nos beijos,
as líricas frases, os castos delírios,
as vozes unidas no ternos arpejos,
são taças abertas, fragrâncias de lírios,
de trêmulos lírios de orvalho banhados
qual lágrimas puras que choras por mim?
Enxergo em teus olhos, suave Maria,
sorriso de luzes que em ti se irradia,
que és toda ternura, porque amas assim.


sexta-feira, 6 de abril de 2012

Essa Covinha... IV

José Gilberto Tristão de Almeida
(Publicado no jornal “O Comércio da Franca” – Data desconhecida)


Pôs Deus, em teu sorriso, o eterno encanto
de quanta graça pôde ter juntado
e fez com que, feitiços e quebrantos,
tudo em teu riso fosse concentrado.

Uma estrelinha azul viu, com espanto,
um de seus raios ser, por Deus, roubado,
mas pôde conformar-se ao ver, no entanto,
que o tinha em teu sorrir ressuscitado.

Assim, do sol, dos astros e da lua,
da brisa terna que há no mês de agosto,
da graça que no teu olhar flutua,

fez Deus o encanto em teu sorriso posto
e o guarda, p’ra maior ventura tua,
nessa covinha que tú tens no rôsto.

Bom Destino

O médico tem
A sina que o ilumina:
Ajudar alguém!

Gilberto de Almeida
04/04/2012

Turfe


                GUINCHA, CAPRICHA, RELINCHA!

                Deu sinal o ônibus já ia passando freou com a alma toda do motorista parou uns tantos metros adiante quase atropelou a senhora idosa que tinha um pé avançado na rua – zum zum zum blá blá blá – que motorista cavalo e quem disse que queria esperar quinze subirem no ônibus?

                RONCA, DÁ BRONCA, DESTRONCA!

                Passa no Anhangabaú? No Elevador Lacerda? Não empurra olha essa mão no Veropeso!

                RONCA, DÁ BRONCA!

                Como é minha velha sobe ou não sobe?

                CATRACA  TRACA CATRACA!

                O cobrador não tinha troco ia ter que levar vale-transporte justo ele que nunca pegava ônibus não quis não e pior ainda já que já ia descer loguinho ali na esquina da Boa Viagem com a Pampulha acabou ficando sem troco.

                PARADO UM CARRO DO LADO!

                - É a tua era a do outro e a dos passageiros também só porque o motorista saiu da faixa exclusiva porque tava tudo parado?

                RONCA, ARROMBA, DESTRONCA!

                Guinou para a Ouvidor Freire aproveitou que era descida não era no trajeto e engatou banguela quase atropelou o pivete e o pessoal de dentro dizia que doido que isso não era carro de boi que que que.

                VALETA CATAPLETA NO TETO!

                Mas era carro de boi sim olha a curva se segura desencocha daí sai do meu colo o debaixo é meu vai tirá o pai da forca motorista? Mas agora que tava porre da vida mesmo com todo mundo enchendo o seu não quero nem saber e fé na tábua que agora é que vocês vão ver o que é que é bom o farol tava vermelho nem ligo e aquele louco cruzando o sinaleiro não vê que eu tô indo na banguela ô meu sai da frente!!!

                BUZINA EM CIMA AZUCRINA!

                Carro de passeio e todo mundo dentro arregalou duas corujas como se fosse morrer naquela horinha mesmo meu deus!

                ACHA ARREGAÇA A MARCHA!

                GUINCHA RELINCHA DESTRINCHA!

                POU CATAPOU ACABOU!


Gilberto de Almeida
Por volta de 1992

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Quando as Almas se Tocarem


Quando as almas se tocarem,
mesmo que os corpos não;


Quando as almas se tocarem

no espaço imaterial;

Quando as almas se tocarem,
por sintonia,
porque dentro e acima delas
vibra um ideal intangível;

Quando isso acontecer,
quando os olhares (do espírito) convergirem
um calafrio há de percorrer essas almas
apenas por se reconhecerem...

Mas se a força da matéria 
conduzir ao toque,
se as mãos se atraírem,
as almas extasiadas
não caberão mais na física newtoniana.
Não caberão em nada
e se entrelaçarão.

Então, se existir amor
e um sorriso no peito enamorado,
os lábios hão de encontrar o caminho
da fusão, da unidade, do arrebatamento.

E com as almas assim enoveladas,
esta união não será de carne,
não será supérflua
e não será deste mundo:
- será perene
e de outra dimensão.

Gilberto de Almeida
05/04/2012

Poema para Candinho Portinari em sua morte cheia de azuis e rosas

(Vinicius de Moraes)

Lá vai Candinho!
Pra onde ele vai?
Vai pra Brodóvski
Buscar seu pai.

Lá vai Candinho!
Pra onde ele foi?
Foi pra Brodóvski
Juntar seu boi.

Lá vai Candinho!
Com seu topete!
Vai pra Brodóvski

Pintar o sete.

Lá vai Candinho
Tirando rima
Vai manquitando
Ladeira acima.

Eh! Eh, Candinho!
Muita saudade
Para Zé Cláudio
Mário de Andrade.

Se vir Ovalle
Se vir Zé Lins
Fale, Candinho
Que eu sou feliz.

Ouviu, Candinho?
- Diabo de homem mais surdo...