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quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Jogo de Bridge






Gilberto de Almeida
15/08/2012





terça-feira, 14 de agosto de 2012

Prato do Exílio

Minha terra tem feijão,
Pão de queijo e vatapá;
As vezes se dá gorjeta,
De gorjetas, como eu lá.


No pastel tem mais cebolas,
Já nas sopas, mais vapores,
Nos quiosques tem comida,
Na comida mais sabores.

Beliscar, sozinho, à noite,
Meu aipim com tacacá;
As vezes se dá gorjeta,
De gorjetas, como eu lá.

Minha terra tem primores,
Que não acho em Taiwan;
Pra comer banana, à noite,
Só se eu for buscar de Van;
Já pra comer carne seca,
Vou buscar no meu Sedã.

Buenos Aires que não queira,
Que eu fique sempre por lá;
Sem que desfrute a primeira
Fruta de um pé de cajá;
Sem qu'inda coma o feijão,
De gorjetas, como eu cá.


Gilberto de Almeida
14/08/2012

Paródia de: Canção do Exílio (Gonçalves Dias)

Cecília Meireles - Sem Título - I

(Cecília Meireles)

Em toda a vida, nunca me esforcei por ganhar nem me espantei por perder. A noção ou o sentimento da transitoriedade de tudo é o fundamento mesmo da minha personalidade.

A parábola da geleira




















A geleira amava o mar, e um dia lhe pediu:
- Mar, por favor, me aqueça!

E o mar, que também amava a geleira, se recusou, e disse:
- Se eu te aquecer, você desaparecerá!
- Eu te amo e não posso permitir isso!

A geleira continuou com frio,
mas compreendeu todo esse amor
e ficou firme!

Muito tempo depois, atormentada pelo frio que passava,
a geleira lembrou-se de um amigo e lhe pediu:
- Ar, por favor, me aqueça!

E o ar, que amava a geleira, se recusou, e disse:
- Se eu te aquecer, você desaparecerá!
- E eu sou teu amigo e te amo e não posso permitir isso!

E a geleira, mais uma vez, continuou com frio,
mas compreendeu todo esse amor
e permaneceu firme!

Mas o homem, que não tinha piedade,
nem amor no coração, ouviu toda a conversa.
E interessado nas coisas da cidade,
pensou que aquecer a geleira era bom!

Então aqueceu o ar, que aqueceu o mar,
que aqueceu a geleira.

E a geleira, que preferia o amor,
sentiu-se traída
e chorou!

Gilberto de Almeida
14/10/2012


segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Poemas Inconjuntos - II


(Alberto Caeiro/Fernando Pessoa)

Falas de civilização, e de não dever ser,
Ou de não dever ser assim.
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as cousas humanas postas desta maneira.
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que se fossem como tu queres, seria melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para que te quereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
Se as cousas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as cousas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade!


A Rocha















Quando a moral é uma rocha,
nem o vento a arranha
nem a água a esculpe
e a rocha não se deforma.

Quando a moral é o amor,
vem o vento e refresca,
vem a água e refresca
e o amor não se deforma.

Quando amor é uma rocha,
vem o vento e arranha,
vem a água e esculpe.

E o calcáreo da rocha se espalha pelos vales,
vai adubar o solo,
vai semear a paz
e fazer renascer, mais verde,
menos duro, mais flexível e mais verdadeiro,
o próprio amor.

Gilberto de Almeida
13/08/2012

Este poema participou do projeto "Aquele Poema". Clique aqui e veja.



Quatro olhares sobre uma cena




















I

Eu posso me orgulhar da minha enorme pequenez:
amá-la, cultivá-la, adulá-la,
vê-la crescer e florescer,
enriquecê-la, adorná-la,
prestar-lhe culto, dar-lhe vulto.

E conseguirei, no final dos meus dias terrenos,
no auge de minha grandeza,
continuar a ser pequeno.

II

Enquanto eu olhar adiante,
direto para o horizonte que se descortina,
não estarei tão radiante
como se olhasse para cima!

III

Nada mais sou que uma lágrima
do pranto do amor divino
querendo evaporar e voltar
para o olho que me chorou.

IV

Sigo em frente, meu caminho.
De onde nem penso, me notam:
não deixam que eu vá sozinho!

Gilberto de Almeida
13/08/2012

sábado, 11 de agosto de 2012

Por do sol na Sicília













A beleza só existe
porque há pessoas abençoadas.

Abençoado é aquele que consegue ver a beleza em algum lugar;
que vê o por do sol e acha belo,
que percebe as cores e os contrastes,
e enxerga a beleza apenas e tão somente
porque ela está lá,
porque o lugar existe.

Abençoada é esta pessoa porque sem ela
a beleza não está lá:
só o lugar existe.

Gilberto de Almeida
11/08/2012

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Tobogã Invertido

invertido.
num tobogã
ascendendo sempre
Tudo que vejo é o caminho
existem, mas eu não consigo ver!
os tais dos baixos da vida; que dizem,
que não faz mesmo sentido, que existam
se não nos amasse mais. Por isso é que não,
e que Ele nos amava tanto quanto nossos pais,
e nos disseram, mesmo, que somos os seus filhos
Deus é misericordioso e, assim não permite o mal;
porque segundo disseram os que sabem as religiões,
O que faz sentido, mesmo, é não existirem os baixos,
além dos altos haveria os baixos, e isso não faz sentido.
se os altos e baixos da vida fossem realmente altos e baixos
mas percebi que os altos e baixos da vida, não são altos e baixos;
eu quiz escrever um poema que dissesse sobre os altos e baixos da vida,


Gilberto de Almeida
10/08/2012




Poemas Inconjuntos - I

(Alberto Caeiro/Fernando Pessoa)

Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenuma.
Com filosofia não há árvores: há idéias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.