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sexta-feira, 31 de agosto de 2012

A vida é uma ponte


Às vezes penso que a vida é uma ponte
que Deus construiu por bondade,
apenas para encurtar o caminho.

E o que me interessa
é não cair desta ponte
chegar ao outro lado
com dignidade!

Gilberto de Almeida
31/08/2012


quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Eu, Alberto e a Senhora Gorda

Eu e Alberto, após o almoço, no banco do parque, observávamos. Eu sentado; Alberto na maleta.
 
um ... dois ... três ... quatro ... – passa a senhora gorda. Acompanho com os olhos o seu trote lento.
 
Fiquei a devanear...  Quem sabe se essa mulher não fora bonita um dia? Se já não tinha tido dias em que fora admirada e elogiada por sua beleza, na juventude? O que será que acontecera? Que motivo íntimo teria levado aquela senhora a permitir que seu corpo ficasse daquele jeito? Melancolia, depressão, frustração...? Por que ela ficou desse jeito?
 
Alberto, que sempre ouve  meu pensamento, respondeu:
- Porque comeu, oras! Ou acaso existe outro caminho por onde os quilos entram no corpo?
 
Era.
 
Gilberto de Almeida
30/08/2012
 
 

Poemas Inconjuntos - VII

(Fernando Pessoa/Alberto Caeiro)

Noite de S. João para além do muro do meu quintal.
Do lado de cá, eu sem noite de S. João.
Porque há S. João onde o festejam.
Para mim há uma sombra de luz de fogueiras na noite,
Um ruído de gargalhadas, os baques dos saltos.
E um grito casual de quem não sabe que eu existo.

Em toda floresta existe um gnomo!



Em toda floresta existe um gnomo
debaixo da ponte, na beira do rio,
de olhar penetrante, árduo, intenso e arredio.
 
Em toda floresta existe um gnomo
que cuida da mata e que escava os minérios,
que esconte os segredos, que guarda os mistérios.
 
Em toda floresta existe um gnomo...
Mas, quando passamos, o andar distraído,
e não lhe rendemos louvor merecido...
 
... em toda floresta existe um gnomo!
- melhor disfarçar, mas (quem diz?) nem sei como!
 
Gilberto de Almeida
30/08/2012
 

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Abismo

(Fernando Pessoa)
 
Olho o Tejo, e de tal arte
Que me esquece olhar olhando,
E súbito isto me bate
De encontro ao devaneando —
O que é sério, e correr?
O que é está-lo eu a ver?

Sinto de repente pouco,
Vácuo, o momento, o lugar.
Tudo de repente é oco —
Mesmo o meu estar a pensar.
Tudo — eu e o mundo em redor —
Fica mais que exterior.

Perde tudo o ser, ficar,
E do pensar se me some.
Fico sem poder ligar
Ser, idéia, alma de nome
A mim, à terra e aos céus...
E súbito encontro Deus.
 
 

Com Alberto, no Terminal Rodoviário do Tietê

No Terminal Rodoviário do Tietê,
estávamos eu e Alberto.

(Para quem não sabe, sempre levo o Alberto na maleta, ou então, no pensamento. Às vezes, quando ele me irrita, guardo-o no bolso!)

Passei por um casal de namorados, felizes, que sorriam.
Para mim a poesia era que os dois estavam sentados no chão gelado, e sorriam!
Ele com sua perna sobre a perna dela, e sorriam!

Mas como Alberto estava comigo, não pude deixar de perguntar sua opinião.
- você vê o casal de namorados felizes, sobre o chão frio?

Claro que não via. O que via então?
- Vejo o chão. Não sei que está frio.
- E vejo um jovem e uma jovem, e ele tem a perna sobre a perna dela. Não sei que são namorados.
- E vejo que sorriem.
- O que vejo é o que é. Mas você, que imagina as cousas, não vê a beleza do que é real!

Não sei por quê, mas não gostei de ouvir aquilo.
Sem dizer uma palavra, guardei o Alberto no bolso!

Gilberto de Almeida
29/08/2012

Poemas inconjuntos - VI

(Fernando Pessoa/Alberto Caeiro)

Uma gargalhada de rapariga soa do ar da estrada.
Riu do que disse quem não vejo.
Lembro-me já que ouvi.
Mas se me falarem agora de uma gargalhada de rapariga da estrada,
Direi: não, os montes, as terras ao sol, o sol, a casa aqui.
E eu que só oiço o ruído calado do sangue que há na minha vida dos dois lados da cabeça.

Empréstimo

(Vicente Galeano)

Um jovem, tomado de paz,
dizia ter sido assaltado:
levaram do pobre rapaz
os ganhos escassos, coitado...;
dizia: - Deus sabe o que faz
e deve ter, sim, precisado
daquela quantia fugaz
que antes me havia emprestado!


Para que distas de mim?

 
 

 
Gilberto de Almeida
29/08/2012
 
 

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Poesias da Vida - VIII

(Juliana Paula Landim)

Na copa vejo as pessoas mais.
Mais felizes, mais falantes, e também mais criticantes.
Faz parte!

E assim estavam todos
sorrisos.

Foi quando ela entrou
de salto,
bundão empinado (porque o salto deixa o bundão empinado)!

Mas ela entrou
de salto,
nariz empinado (o salto também deixa o nariz empinado?)!

Aquele olhar acinzentado fez da popuzuda o reflexo do descompasso!
E tudo na copa ficou menos,
e eu saí!