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domingo, 30 de setembro de 2012

Tábua estreita

 
O futuro espreita
enquanto eu caio e levanto
pela tábua estreita.
 
Gilberto de Almeida
30/09/2012


sábado, 29 de setembro de 2012

Cenas em um Shopping - XI

Separado, passeando sem os filhos, sem ninguém!
Pelo menos, sem ninguém que eu pudesse ver.

Mas eu estava naquela amosfera mista
de entrega à divina essência,
à devanescência
à tristeza
e à solidão.


De certo modo, penso que esse confusão mental de hoje
abriu em mim as portas
de algum lugarzinho que nós temos,
por onde se deixa entrar a beleza das coisas.

E foi por isso, acredito,
que eu pude perceber o que sempre devia estar lá,
mas eu não via:

- tinha um casal de meia idade que caminhava abraçado. Marido com expressão de serenidade, de paz, de quem não queria estar em nenhum outro lugar do mundo;

- passei por uma menina de vestido muito verde, cor de seus olhos, que sorriam com a alma, para a mãe;

- no restaurante, uma menina de uns quatro anos, dava com seu garfo, da sua própria cominda, para a irmãzinha menor;

- um casal feliz, se abraçava e se beijava na escada rolante. Depois ele deu um tapinha discreto no traseiro dela. Ops. Eu vi;

- no cinema, um sujeito se desculpava à moça da bilheteria porque havia perdido seu óculos para a projeção 3D. Ela deu uma piscadinha, e lhe deu outro;

- no supermercado, a moça empurrava o carrinho. Não. O moço, com a mão sobre a dela, empurrava junto;

- as três moças do caixa da drogaria, se divertiam tentando traduzir uma frase de amor para o inglês;

- a menina, que tomava um sorvete, de vestido cor de rosa, e um gatinho desenhado no dorso da mão, se divertia no balcão do caixa do estacionamento, enquanto o pai, sem mãe, a equilibrava, ao mesmo tempo que digitava a senha do cartão de crédito e procurava não deixar cair os pacotes de compras.

- e o local, onde, há pouco tempo, eu sentara para tomar um café, cercado de pessoas queridas, estava vazio.

Fiquei pensando como é importante e como faz bem a gente poder dar amor e carinho a quem queremos bem... Mas eu não podia!

Gilberto de Almeida
29/09/2012

A Sombra

 
Gilberto de Almeida
29/09/2012
 


A estrada



















A estrada branca.
A estrada branca, pinheiros brancos.
A estrada branca, pinheiros brancos, a neve branca.

A estrada branca, pinheiros brancos, a neve branca,
a neve branca, estrada branca, pinheiros brancos,
pinheiros brancos, a neve branca, estrada branca,
estrada branca, Pinheiros brancos, mas não me arranca

nenhum sorriso.

A pele branca.
A pele branca, os olhos brancos.
A pele branca, os olhos brancos, tulipa branca.

A pele branca, os olhos brancos, tulipa branca.  
a estrada branca, pinheiros brancos, a neve branca,
tulipa branca, os olhos brancos, a pele branca
a neve branca, pinheiros brancos, e a bela sanca

de amor conciso.

A alma branca.
A alma branca, cabelos brancos.
A alma branca, cabelos brancos, página branca.

A alma branca, cabelos brancos, página branca,
a pele branca, os olhos brancos, tulipa branca,
a estrada branca, pinheiros brancos, a neve branca,
a alma branca, cabelos brancos, já não me espanta

nenhum juízo.

Mas, e se o raio de sol se insinua por entre a sombra que escurece a neve?
Aí é show!
E é pra lá que eu vou!

A alma branda, cabelos brandos, página branda,
a pele branda, os olhos brandos, tulipa branda,
a estrada branda, pinheiros brandos, a neve branda,
a alma branda, cabelos brandos, numa ciranda

da qual preciso!

Gilberto de Almeida
29/09/2012

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Poesias da Vida - XVII

(Juliana Paula Landim)

Trodia um amigo disse
- e admiro sua franqueza -
que escrevo sem cuidado, que meu palavreado isso, que a gramática aquilo, sei lá!
Enfim, que eu precisava melhorar!

E a mesma franqueza que admiro, eu agradeço, mas
Tônemaí !
Tendeu?

Escrevi, você leu!
Pensou, entristeceu, alegreceu, ficou puto, gozou?

Então serviu!

No mais,

Tônemaí !
Tendeu?

Médico, o que fazes?

(Vicente Galeano)

Médico, médico! O que fazes?
Que são diploma, a mente aguda,
os seguidores contumazes
e a conta bancária poupuda,
se não distrações perspicazes?
Faz mais. Sê humilde! O amor desnuda!
Com teu trabalho faz as pazes
e não mais finge: vai e ajuda!

Os dois motivos para escrever

O poeta escreve basicamente por dois motivos:
ou porque está feliz,
ou porque não está!

Mas quando está em coma, não escreve!

Gilberto de Almeida
28/09/2012

Eu, Alberto, a colina, a árvore e a capela




Era uma manhã fria de outono nos arredores de Londres.
 
Mesmo assim, decidi sair para caminhar. Vesti o sobretudo negro que não tenho, coloquei o Alberto no bolso e saímos.
 
Caminhar logo cedo pelo campo refresca o corpo - principalmente se o sobretudo é imaginário - e a alma. O ar frio da manhã lembra-me, compulsoriamente, a minha fragilidade e, assim, a beleza da paisagem, naturalmente, se amplia.
 
E - assumo - passeando com a alma embevecida pela beleza da vida, foi que avistei a colina, a árvore e a capela. Não pude deixar de me comover com a cena. Toda de vermelho, a árvore chorava suas lágrimas apaixonadas, que, de sangue, forravam o chão. Tanta tristeza por não poder entrar na capela para fazer sua oração. Por que a haviam deixado de fora?
 
- Ora - respondeu Alberto, pensando que meu desvario era uma pergunta direta - ora, meu entorpecido amigo, é que não conheces a natureza. Não sabes que as árvores estão onde estão e não querem estar em outro lugar. Elas não choram. Tampouco oram. E se orassem, sua oração não haveria de ser mais do que  o que agora vês. Não haveria de ser mais que a paciente aceitação de sua condição de perder as folhas no outono e de recuperá-las na primavera, de se cobrirem de neve no inverno e de se aquecerem no verão.
 
...

Como visse que eu não me manifestava, ousou concluir:

- E assim, não fazendo nada mais do que fazem, continuam sendo belas!  
 
 

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Poesias da Vida - XVI

(Juliana Paula Landim)

Hoje encontrei a pessoa mais infeliz do mundo!

Acordou cedo, com um frio terrível, não tinha água quente, metrô com problemas, pagou, desistiu, pegou duzentos e vinte e cinco ônibus, chegou atrasada, não trouxe marmita, nem dinheiro, não sabia como ia almoçar! Estava com vontade de fazer xixi, o banheiro entupido! Para completar sua infelicidade não parava de mastigá-la e regurgitar na gente!

Até esqueci do povo da Etiópia!
Até esqueci do povo da Síria!
Até esqueci dos desempregados, dos moradores de rua!
Nem lembrei dos doentes com câncer e dores incoercíveis!
Esqueci também daqueles que se afundaram no mundo das drogas e das bebidas!

Tal era o seu sofrimento!

E eu ainda mandei ela calar a boca!
Tadinha!

O amor é um recanto sereno

O amor é um recanto sereno,
de luz decorado e florido
que acolhe, que encanta e faz pleno
aquele a quem é concedido.
Gilberto de Almeida
27/09/2012