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quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Tijolos de amor


Poucos tijolos e se faz
um lar singelo e acolhedor 
em bases sólidas de paz
e sustentado pelo amor!

Com persistência se perfaz,
no entendimento e no calor
do braço amigo e pertinaz,
compreensivo e protetor.

Mas que tijolos peculiares
eventualmente poderão
edificar o amor nos lares?

Somente o afeto e a compreensão
farão de todos os lugares
praças de amor, de paz e união!

Gilberto de Almeida
17/10/2012


terça-feira, 16 de outubro de 2012

A vida da minha casa


A minha casa tem vida
e a vida da minha casa tem vida
e a vida da vida da minha casa
tem casa
na minha vida.
 
Gilberto de Almeida
16/10/2012
 
 

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Dois haicais para os professores

O bom professor
semeia a luz que incendeia,
tomado de amor.
 
Aquele que ensina
entoa a voz que abençoa
e o mundo ilumina.
 
Gilberto de Almeida
15/10/2012
 

Nem em pensamento


Às vezes me surpreendo arrebatado,
no pensamento insano, o vão pensar;
pensando se o pensar desenfreado
me levará talvez a algum lugar.

E penso, assim pensando, atordoado,
que o pensamento o mundo faz mudar:
se o pensamento for direcionado
dará, por certo, ao mundo, o que pensar.

Pensar no bem, num mundo mais bonito
quem sabe é meio de enternecimento:
- um passo rumo à paz, ante o conflito.

Por isso não cultivo nem comento
o ódio, nem vingança, nem atrito:
- não penso nisso, nem em pensamento!

Gilberto de Almeida
15/10/2012

Arco do Triunfo

 
 
Passagem na rocha esculpida
por força do vento e do mar,
banhou-me, a vultosa surpresa,
de amor, a estranheza do olhar.
 
Portal sobre o berço da vida,
impávido em pleno oceano,
mostrava-me a vasta beleza
de um mundo maior que o humano.
 
E, então, de alma inquieta e aturdida,
achei que a beleza incomum fos-
se Deus, ante a mãe natureza,
que erguera tal arco ao triunfo.
 
Gilberto de Almeida
15/10/2012
 

domingo, 14 de outubro de 2012

Meu coração numa bandeja



A entrega que eu devo fazer
a quem quer que seja
é meu coração
numa bandeja.
 
E menos fazer é tão pouco
que não há grandeza.
E eu me desespero:
pura tristeza.
 
Gilberto de Almeida
14/10/2012
 
 

Siliclone

 
Gilberto de Almeida
14/10/2012

Parados no caminho



Subindo, na longa jornada,
o tempo é raro e contundente,
mas muitos paramos na escada,
não vendo esse engodo premente:
 
- que a vida é um caminho capaz
de, ousada, iludir muita gente:
convida a que olhemos pra trás,
deixando de andar para a frente.
 
Gilberto de Almeida
14/10/2012
 
 

sábado, 13 de outubro de 2012

Com Alberto, na vila Gosau


A Vila Gosau, na Áustria, é um lugar diferente.
Mas digo diferente, querendo dizer belo.
E digo belo, querendo dizer que ao lá chegar, vindo de Haia, quase perdi o fôlego.

Parei a distância. E aquela brisa fria do diminuto vale, banhado pelo sol que àquela hora já dissipava a névoa matinal, me enchia os pulmões de êxtase.

Por isso digo belo, querendo dizer extasiado com a beleza, com o clima, com tudo!

Parecia que Deus vinha erguer, naquele exato instante, somente para que eu e Alberto pudéssemos assistir o espetáculo, o lençol de brumas que, noite adentro, havia de ter tornado fantasmagórica a paisagem. Parecia que o criador nos queria revelar a face esplendorosa de sua criação, como um anfitrião hospitaleiro, insistindo na permanência dos futuros hóspedes...

Comovido pelo encanto da paisagem, num ímpeto de contentamento, tirei o Alberto da maleta! Queria que ele apreciasse a criação, a natureza, tudo de que ele gostava na vida:

- Não é belo, Alberto, não te agrada?

E Alberto, muito gentil naquela manhã, talvez cativado pela brisa leve que lhe acariciava o rosto, explicou:

- Muito me agrada, Gilberto. De facto, muito me agrada!
A brisa refrescante entra pelos meus pulmões e me torna a respiração fácil e sossegada.
O sol, que aquece o corpo, o faz brandamente. Não perturba e não irrita e minha pele se sente confortável com isso.
Piso na relva macia e meus pés podem sentir o contacto com a grama e a umidade do orvalho que ainda não se dissipou. E essa sensação também é agradável.
Enxergo o vilarejo, as casas com seus telhados altos, a torre da igreja, e meus olhos percebem isso com nitidez.
Também vejo o nevoeiro que se move atrás dos pinheirais.

Mas se não mantiveres o olhar tão distante, meu amigo Gilberto, como quem procura enxergar além das cousas, verás que a poucos passos daqui estão umas vacas a pastar, e que ali, com elas, está toda a verdade.

O que achas que elas pensam da beleza de que tu falaste, ocupadas que estão em se alimentar da grama? O que achas que pensam do lençol de brumas que tu mencionaste?

Por certo, nada pensam e nada sabem.
E o fato de não pensarem e de não saberem, meu amigo, não torna as cousas diferentes.
E o que existe, existe e, assim, esses animais vivem, e nós vivemos, independente de como as cousas aparentam.

E esta beleza de que falas, não existe para as vacas que pastam e não existe para mim, que não penso nisso.
Mas sou feliz por saber que o mundo é tal qual é, e o posso sentir como to disse.

Para mim, a vida é como as vacas, que apreciam o capim, porque tem gosto de capim.

Gilberto de Almeida
13/10/2012

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

O filho do jardineiro



Nos jardins de Keukenhof, o filho do jardineiro se enternecia pela tulipa adoecida que segurava nas mãos:
- Meu pai, que bonita, mas está doente!

O pai, simples, mas experiente; inculto, mas sensível; rude, mas amoroso, percebeu a estrela da perplexidade que se acendia no coração do menino e principiou a seguinte história:

- Tulipas, meu filho, são a lembrança da minha vida, mas elas próprias têm memória curta; são lindas de se ver, mas elas mesmas pouco adiante enxergam.

Havia, distante daqui, um local de terras planas, uma imensa campina. Os olhos não conseguiam ver onde terminavam, nem onde começavam. Era cercada de montanhas férteis, mas no solo dessa campina, nenhuma planta crescia, porque ele era árido. Nada por lá brotava.

Segundo contam, na escuridão de uma única noite, um jardineiro, que ninguém jamais viu, nem sabe de onde veio, conseguiu semear tulipas por toda aquela enorme área. Como ele fez isso, é desconhecido. Ainda hoje é mistério. O que importa é que as sementes lá ficaram. Mas, como tudo que antes se tentou plantar naquela campina, não brotaram.

Quem conta essa história jura: o jardineiro, vendo malograda sua esperança, não se conformou! Chorou por cinco dias e cinco noites. Suas lágrimas de desespero, então, caíram como tempestade sobre as montanhas férteis e sobre a campina. E o seu descontentamento caiu como relâmpagos por toda aquela extensão.

Depois disso, meu filho, quando o jardineiro estancou suas lágrimas, como que por milagre, todas as tulipas haviam florescido, todas nasceram maravilhosamente belas, de uma só cor. A alegria desse encantado jardineiro se estampou, então, no céu da campina, como um maravilhoso e duradouro arco-iris.

Do destino do jardineiro, nunca se soube. Dizem que ele subiu ao alto das montanhas e lá vive ainda hoje; se as tulipas perdem a cor ou a vitalidade, como esta que tens em tuas mãos, ele chora, e com seu choro advém nova tempestade; suas lágrimas revitalizam as tulipas e, ao vê-las resplandescer novamente, sua felicidade, invariavelmente, orna os céus com a beleza daquele mesmo arco-iris fulgurante do primeiro dia.

Mas, como eu dizia, as tulipas pouco enxergam, e, também, pouco lembram. Durante todos os anos, desde que nasceram pela primeira vez, nunca lhes faltou a chuva revigorante, nem a paz que a sucede. O que acontece, no entanto, é que, ao vir da chuva torrencial, da tormenta e dos relâmpagos, as tulipas se desesperam como crianças. Gritam, esperneiam e choram. Não percebem que seu choro de desespero faz escurecer ainda mais a noite e aumenta o terror da tempestade!

E, ao amanhecer do dia, já banhadas pela luz do arco-iris, as pobres tulipas, tão belas, mas tão cegas e tão esquecidas, nem se lembram que, desde o princípio, só florescem e se tornam belas quando passam pela tempestade...

Gilberto de Almeida
12/10/2012