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quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Setenta vezes sete

"Então, Pedro, chegando-se a ele, perguntou-lhe: 'Senhor, quantas vezes devo perdoar ao irmão que pecar contra mim? Até sete vezes?' Jesus respondeu-lhe: 'Não te dito até sete, mas até setenta vezes sete.'"
(Jesus: Mateus, 18: 21-22)


Jesus nos recomenda que, ante o mal,
não revidemos; brilhe o amor cristão
no esforço reluzente do perdão!
Perdoar restringe a influência natural

do fato criminoso ao próprio umbral
dos erros do passado e deixa, então,
a estrada do progresso e redenção
aberta ao caminhante sideral.

No entanto, se à vingança se decide
e, à angústia que sofreu, ele emparelha
mais mal, na trilha escura do revide,

o homem, seu futuro compromete.
Jesus, porém, perdoar, nos aconselha,
não sete, mas setenta vezes sete!

Gilberto de Almeida
23/10/2019


segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Deus está presente

para Carolina, minha filha


No desespero, Deus está presente
em nosso coração, como esperança.
Porém, essa presença, não a alcança
o Espírito indeciso e reticente.

No desespero, Deus, onipotente,
é a força do invisível que afiança
o auxílio, a lucidez e a segurança
perante a situação que se apresente.

Não há, na Terra, fato ou imprevisto,
dos quais, Deus, poderoso, não consiga,
fazer tão jubiloso quão benquisto

sucesso de blandícias luminosas.
A Deus peçamos força, na fadiga,
pois Deus é quem, de espinhos, faz as rosas.

Gilberto de Almeida
20/10/2019

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Tolerância



Tenhamos tolerância com quem erra
porque ninguém se encontra em tal estado
de perfeição, por ora, nesta Terra,
que possa declarar não ter errado.

O engano, usualmente, mais encerra
ignorância que mal premeditado.
Busquemos silenciar a nossa guerra
de austero redentor, tenaz cruzado.

Estendamos a mão ao irmão caído
certos de que, algum dia, também nós
poderemos, do amparo justo e amigo

necessitar. Que não se desagrade
jamais a nossa ação e a nossa voz
do ofício fraternal da caridade.

Gilberto de Almeida
11/10/2019

Referência: Recados do Meu Coração. Bezerra de Menezes/José Carlos de Lucca. 
Capítulo "Tolerância"


quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Meta-soneto em redondilha maior


Quando a água concluiu
seu trajeto delicado,
já dispersa no macio
ondular do mar salgado,

surge um vácuo. Este vazio
é o trabalho terminado.
O poema é como rio,
que só existe, inacabado.

Quando a obra se completa,
tudo muda num segundo;
como filha predileta

de um desvelo moribundo,
morre a ideia do poeta
e um poema vem ao mundo.

Gilberto de Almeida
10/10/2019


terça-feira, 8 de outubro de 2019

Diálogo com a Morte


- Quem é que vem chegando? - Sou a Morte!
- Mas, Morte, que desejas? - Vim buscar-te!
- Mas, como? Justo agora? - Sejas forte!
- Não podes me levar... - É minha arte!

- E a qual lugar me levas? - Para a corte!
- Da parte de quem chegas? - De Alta parte!
- Mas tenho esposa e filhos! - Não te importe!
- Não quero que me leves! - Vim levar-te!

- Mas não me preparei... - O que me dizes?
- Não ajudei ninguém! - Pobre coitado...
- Vivi por meu conforto... - Teus deslizes...

- No mais, sou inocente! - Estás culpado!
- E quem me julgará? - Temos juízes...
- Mas posso reparar... - Tempo esgotado!

Gilberto de Almeida
08/10/2019

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Hoje é Domingo


Hoje é domingo porque O Céu se compadece
de nossas pobres e angustiosas amarguras.
O Sol fulgente instala o dia nas mais puras
emanações renovadoras, qual pudesse,

da imensidão donde se encontra (pois conhece
as nossas dores) recobrir-nos de ternuras
e dirigir-nos as passadas inseguras.
Hoje é domingo e O Céu convida-nos à prece

de gratidão, de acatamento e de alegria,
de reverência, de bendito e alentador
devotamento às claridades desse dia.

E, mesmo assim, seja hoje o dia que hoje for,
hoje é domingo porque Deus nos contagia
com a infinita compaixão do Seu amor.

Gilberto de Almeida
06/10/2019


sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Desgarrados, buscamos


I

Senhor, nos desgarramos do redil
de paz, de alacridade e de ternura,
nas ilusões cingidas de aventura
no mundo, em temerário desvario.

Agora, arrependidos e vazios,
buscamos Teu amor como procura,
no inóspito deserto que o tortura,
o nômade por água no cantil.

Senhor, depois da enorme insensatez
de priorizar, na vida, os próprios egos,
o vácuo da consciência foi, talvez,

a voz a interpelar-nos como cegos.
Mais tarde, compreendemos que a altivez
cravou, na nossa cruz, seus próprios pregos.

II

Senhor, então buscamos, nos Teus passos,
amparo, na hora ingrata em que, culpados,
colhemos, com tristeza, os resultados
de nossos imprudentes descompassos.

Agora, sob a dor dos erros crassos
nos quais tanto incidimos no passado,
caímos, confrangidos, trespassados
de angústia indefinível, nos Teus braços.

Senhor, por fim, cansados das desditas
de nossas vidas tolas e confusas,
cansados de amarguras infinitas,

não mais queremos fugas nem escusas.
Rogamos que a Tua lide nos admitas,
e, doravante, os passos, nos conduzas.

Gilberto de Almeida
04/10/2019



terça-feira, 1 de outubro de 2019

Faccionismo


Sintoma tão notório quão diacrítico
do fanatismo excêntrico que obumbra
o justo ideal, opondo viés político,
lançando-lhe a virtude na penumbra,

é o absoluto, estúrdio e paralítico
empenho em silenciar o que vislumbra,
alguém, no "faccionismo" de homem crítico,
contrário à ideologia que o deslumbra.

Assim, segue o fanático, no insólito
propósito de impor os seus ideais
e converter visivas num monólito!

Não vê que em seus arroubos magistrais
acaba por tornar-se o próprio acólito
das forças opressivas ancestrais!

Gilberto de Almeida
01/10/2019

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Diferença



Diferença, infelizmente,
é motivo que ainda trai
preconceito intransigente
na postura de quem cai

nos ardis da própria mente.
Cá entre nós, dizei (pensai!):
- por acaso, toda gente
não é igual perante o Pai?

Por que somos resistentes?
Todos buscam pela paz!
Nesta terra de doentes,

pouco menos, muito mais,
mesmo sendo diferentes,
todos nós somos iguais!

Gilberto de Almeida
27/09/2019

terça-feira, 24 de setembro de 2019

Tentáculos


Se a imprensa, incontinenti, se compraz
em revolver, da vida, os seus dejetos
expondo ao mundo pútridos e abjetos
cenários, crimes, dramas e o que mais

a sordidez humana for capaz
de oferecer aos olhos indiscretos
sedentos de miséria, é porque adeptos
dos fatos deprimentes e imorais,

os homens são perfeitos receptáculos,
lixeiras compulsivas e "indefesas"
nas quais se deposita, dos cenáculos

do mundo, a podridão e as impurezas.
São presas transigentes dos tentáculos
que alcançam-nos, de ocultas profundezas.

Gilberto de Almeida
24/09/2019