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terça-feira, 10 de julho de 2012

Cantigas Praianas - VIII

(Vicente de Carvalho)

Do que sofro sem queixar-me
Sois causa sem o supor:
Matais-me, e sois inocente,
Que eu espio unicamente
O crime do meu amor.

Matais-me; e é meu, e não vosso
Esse crime sem perdão,
O crime de um suicida
Que em sonhos esbanja a vida
Sabendo que sonha em vão.

Cantigas Praianas - IX

(Vicente de Carvalho)

Vida, que és o dia de hoje,
O bem que de ti se alcança
Ou passa porque nos foje,
Ou passa porque nos cança.

Ainda mesmo quando ocorrer
Na vida dos mais felizes,
O prazer florece e morre,
A magua deita raízes.

Tem alicerces de areia
O que constróes cada dia,
Vida que corres tão cheia
Para a morte tão vazia.

Haverá queixa mais justa
Que a do feliz que se queixa?
Ai, o bem que menos custa
Custa a saudade que deixa.

domingo, 8 de julho de 2012

Velho Tema - V

(Vicente de Carvalho)


"Alma serena e casta, que eu persigo
Com o meu sonho de amor e de pecado,
Abençoado seja, abençoado
O rigor que te salva e é meu castigo.


Assim desvies sempre do meu lado
Os teus olhos; nem ouças o que eu digo;
E assim possa morrer, morrer comigo,
Este amor criminoso e condenado.


Sê sempre pura! Eu com denodo enjeito
Uma ventura obtida com teu dano,
Bem meu que de teus males fôsse feito".


Assim penso, assim quero, assim me engano...
Como si não sentisse que em meu peito
Pulsa o covarde coração humano.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Velho Tema - I

(Vicente de Carvalho)

Só a leve esperança em toda a vida
Disfarça a pena de viver, mais nada;
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.

Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,

Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos

Velho Tema - II

(Vicente de Carvalho)

Eu cantarei de amor tão fortemente
Com tal celeuma e com tamanhos brados
Que afinal teus ouvidos, dominados,
Hão de à força escutar quanto eu sustente.

Quero que meu amor se te apresente
— Não andrajoso e mendigando agrados,
Mas tal como é: — risonho e sem cuidados,
Muito de altivo, um tanto de insolente.

Nem ele mais a desejar se atreve
Do que merece; eu te amo, e o meu desejo
Apenas cobra um bem que se me deve.

Clamo, e não gemo; avanço, e não rastejo;
E vou de olhos enxutos e alma leve
À galharda conquista do teu beijo.