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segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Uma árvore

Em meio à inconsequência dos ditados populares,
de poeta, médico e de louco
só me falta plantar uma árvore,
mas há que esperar mais um pouco!

Gilberto de Almeida
05/11/2012

No meio do laguinho


No meio do laguinho tinha uma pedra.
Mas compreendi que esse acontecimento
por certo não era poesia!
Porque laguinho
é diminutivo,
porque a pedra não estava
no meio do caminho
e porque as minhas retinas não estavam
tão fatigadas.
 
Gilberto de Almeida
05/11/2012
 
 
 

domingo, 4 de novembro de 2012

Eu, Alberto e a Rolinha

Hoje pela manhã saí a caminhar com o Alberto.
E quando a gente caminha, além de caminhar, a gente faz duas coisas:
A gente contempla
e a gente pensa.

E às vezes o pensamento da gente entra num turbilhão de coisa alguma
e a gente sonha.

Foi quando eu lembrei que o Alberto estava comigo
e quiz saber como seria
não sonhar.


Olhei para o Alberto e ele, que não pensa, mas entente meus pensamentos,
disse:

- Está vendo aquela rolinha no topo do muro?
Pois sou como ela.
Ela sabe que existe o vento
Porque o vento toca suas penas.

Ela não pensa em voar, mas quando quer
Bate as asas e, com a impulso do vento, voa.

Gilberto de Almeida
04/11/2012

Bons ventos

A fala dalguma palmeira:

- Estou inclinada a pensar...
Se o vento pra sempre estiver
ventando, talvez, se puder,
acabo meus dias no mar!

Resposta do mar (de primeira!):

- Se o vento quiser que o seu lar
esteja onde eu sei que ele quer,
será você mesma a mulher
com quem eu irei me casar!

Gilberto de Almeida
04/11/2012


sábado, 3 de novembro de 2012

Finados - II

(dedicado a meu pai)

Pai, já sei onde estás!

Já sei o que és...

Não és a brisa, nem flores,
nem és morro, nem nuvens, nem pensamento ...

Tantos anos desatento,
mas já não existem dores...

Sei que precisas da paz
que eu vislumbro através
do infinito, onde estás, iluminado
sereno, seguindo adiante,
mas terno, ainda a meu lado!

Vai com Deus por esta prece
nascida do amor radiante
do filho que não te esquece.

Gilberto de Almeida
03/11/2012

Fugaz enternecimento!



Ah, que gostoso inspirar fundo
e sentir o ar frio da montanha penetrar nos pulmões
como se congelasse a alma
num momento eterno
de fugaz enternecimento!
 
Gilberto de Almeida
03/11/2012
 
 
 

Como um gazebo




















Primeiro imaginei que a moradia
que eu fosse, aconchegante, deveria
ter móveis confortáveis pelo piso
e espelhos a mostrar-lhe o seu sorriso;
paredes decoradas, quadros, belas
cortinas balançando nas janelas;
na sala, um estofado e uma lareira
para aquecer-lhe a vida, a vida inteira;
nos quartos, camas com lençois macios
- um templo para os  nossos desvarios...

Mas eis que o tempo passa e a gente pensa
que o que pensamos antes foi pretensa
ternura, falso amor, que agora sente
ser fruto do egoísmo imprevidente.

Então, não quero mais que a moradia
que eu seja, seja quente ou seja fria,
nem quero ter mobília refinada
que ostente o desamor, talvez, mais nada!
Sem quadros, sem paredes, sem prisão
eu quero ser algum lugar que não
confina, não oprime e, sim, liberta,
lugar em que você, enfim, desperta,
seja você, não seja os meus quereres,
sejamos nós: um ser; um ser; dois seres!

Assim, que a moradia que eu concebo,
sem portas, se assemelhe a algum gazebo
a proteger do sol minha mulher
que apenas entre nele se quiser.

Gilberto de Almeida
03/11/2012

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O Guardador de Rebanhos - IV

(Alberto Caeiro/Fernando Pessoa)

Essa tarde a trovoada caiu
Pelas encostas do céu abaixo
Como um pedregulho enorme...
Como alguém que duma janela alta
Sacode uma toalha de mesa,
E as migalhas, por caírem todas juntas,
Fazem algum barulho ao cair.
A chuva chovia do céu
E enegreceu os caminhos...

Quando os relâmpagos sacudiam o ar
E abanavam o espaço
Como uma grande cabeça que diz que não,
Não sei porquê - eu não tinha medo -
Pus-me a rezar a Santa Bárbara
Como se eu fosse a velha tia de alguém...

Ah! é que rezando a Santa Bárbara
Eu sentia-me ainda mais simples
Do que julgo que sou...
Sentia-me familiar e caseiro
E tendo passado a vida
Tranquilamente, como o muro do quintal;
Tendo idéias e sentimentos por os ter
Como uma flor tem perfume e cor...

Sentia-me alguém  que possa acreditar em Santa Bárbara...
Ah, poder crer em Santa Bárbara!
(Quem crê que há Santa Bárbara,
Julgará que ela é gente e visível
Ou que julgará dela?)

(Que artifício! Que sabem
As flores, as árvores, os rebanhos,
De Santa Bárbara?... Um ramo de árvore,
Se pensasse, nunca podia
Construir santos nem anjos...
Poderia julgar que o sol
É Deus, e que a trovoada
É uma quantidade de gente
Zangada por cima de nós...

Ah, como os mais simples dos homens
São doentes e confusos e estúpidos
Ao pé da clara simplicidade
E saúde em existir
Das árvores e das plantas!)

E eu, pensando em tudo isto,
Fiquei outra vez menos feliz...
Fiquei sombrio e adoecido e soturno
Como um dia em que todo o dia a trovoada ameaça
E nem sequer de noite chega...

Poesias da Vida - XXIII

(Juliana Paula Landim)

Na marginal pinheiros
minha amiga tomou um enorme susto!
Virou o volante numa guinada urgente e instintiva!

Mas, sorte!, conseguiu evitar o acidente e dar passagem
para as sirenes da emergência
que vinham a toda velocidade!

Qual emergência, não sei:
talvez uma mulher em trabalho de parto;
talvez um filho acidentado;
talvez um pai na forca!

Pois era um carro de passeio.
Não era ambulância,
não era bombeiro,
não era polícia!

E eu me recuso a acreditar que alguém
colocasse outras pessoas em risco
por um motivo idiota e egoísta
como, simplesmente,
a presunção de um motorista
de que tenha privilégios sobre os demais
para chegar mais cedo em casa!

Precisaria ser muito monstruoso para isso!

Espero que a esposa de alguém tenha dado a luz com tranquilidade!

Insignificância












Mesmo a luminosidade de um cansado por do sol
é tanta
que reduz meu ego
a sua escura
insignificância.

Gilberto de Almeida
01/11/2012