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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Poema sem palavras


Gilberto de Almeida
07/02/2013



terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Um haicai de amor filial



(a meu pai)

P orque não estás
A ti vou em prece.
I nvento-te a paz!

Gilberto de Almeida
05/02/2013


O Guardador de Rebanhos - XXI

(Alberto Caeiro/Fernando Pessoa)

Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento...

Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural.

Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva...

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade.
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja...


Botões de Poesia
















Eu tirei uns botões de poesia do meu coração,
fiz um buquê 
e o entreguei a você.

Você agradeceu,
sentiu o aroma daqueles versos,
mas estava ocupada com a vida
e seus problemas.

Você os guardou.

Às vezes olhava para a eles,
dentro do peito,
com afeto e saudade
e se entristecia por causa da vida,
por causa dos problemas da vida!

E desses versos assim regados
com uma lágrima de tristeza a cada dia
brotavam tímidas rimas de desconsolo
que não floresciam!

Foi então,
num futuro que não sei onde,
num lugar que não sei quando
que você sentiu o aroma daqueles problemas
do titubear do mundo
e, tomada da magia íntima que emana do coração,
os dominou!

Foi nesse dia,
num futuro que não sei onde,
num lugar que não sei quando
que você percebeu a verdade
guardada dentro do peito
num vaso de pensamento, de lembrança e de saudade...

Então ela floresceu 
num desabrochar imenso
que eu já não sabia como...

Gilberto de Almeida
05/02/2013


O Guardador de Rebanhos - XX

(Alberto Caeiro/Fernando Pessoa)

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que veem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.

O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso, porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Cenas em um Shopping - XXIV


No restaurante,
a mesa ao lado me mostrou
o que eu já sabia:

telefones celulares
também são controles-remotos
que acionam o sorriso
das pessoas!

Gilberto de Almeida
03/02/2013


A depender da dependência


Gilberto de Almeida
03/02/2013


sábado, 2 de fevereiro de 2013

Guiamor Novaes
























Esta manhã uma pianista famosa
cujo nome eu não me lembro
fez a música de Chopin
desdenhar da minha tristeza.

E eu escutei as notas todas
como nunca tinha escutado,
até as que ela respirava
e as que o compositor escondeu
num terceiro lado da partitura!

E percebi que, naquele momento,
muito perto de quase tudo
e distante do mundo inteiro, 
eu respirei a emoção que existia
dentro da música verdadeira
que sai do coração do músico
direto para o coração do poeta!

E nesse instante eu morri;
por isso é que agora lhes falo
de um outro sentido da vida
que a médium iluminada
que me enterrou no coração de Chopin
era Guiomar Novaes!

Gilberto de Almeida
02/02/2013

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Eu, Alberto e a Saúva















Era uma única saúva
que levava em seu ferrão
(zonza, zonzinha e cambaleando)
uma folha de árvore
do tamanho dela própria.

Eu sabia que aquele esforço

iria terminar nalguma câmara
no formigueiro
para depois recomeçar!

E a pobre da saúva
que trabalhava duro
para o benefício da sua comunidade,
não era nem mais triste,
nem mais feliz por causa disso.

Pensei, então, 
que caridade e abnegação
eram como a vida da saúva:

- levar uma folha de árvore do tamanho da gente
para o formigueiro
e não ser mais triste nem mais feliz por causa disso,
mas apenas ser.
Porque é assim que se vive
ou é assim que se deveria viver.

Mas o Alberto,
que escutava meu pensamento,
não pensou no formigueiro,
nem pensou na comunidade
e, sereno, me contou

Que a saúva não devia ser caridosa nem abnegada,
Porque Deus não fez os animais com esse tipo de sentimento ou de pensamento
De serem caridosos ou de serem abnegados,
Mas que ela carregava aquela folha sem sentir e sem pensar
E que a sua beleza era essa mesma beleza
De carregar folhas sem sentir e sem pensar
Apenas porque carregar folhas,
É isso mesmo que as formigas fazem!

E eu olhei para o Alberto
e soube que ele tinha razão,
mas que eu também tinha,
porque nesta vida tudo que nós fazemos
- humanos e saúvas -
é carregar nossos fardos;
só que nós podemos pensar e sentir
e ser caridosos e abnegados,
mas as saúvas, não;
no entanto, mesmo não podendo ser caridosos e abnegados,
muitas vezes esses pequenos insetos o são
bem mais que eu
e bem mais que nós!

Gilberto de Almeida
01/02/2013



Ação


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Ai, se o padre do porão sair... amar... Ia soar o poder da poesia!
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Gilberto de Almeida
01/02/2013