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terça-feira, 29 de novembro de 2016

Pomar sobre a montanha


No natal eu penso 
na pobreza
bem-aventurada
do espírito.

No natal eu choro;
penso na mansuetude,
na fome e na sede
de justiça.

Imagino a misericórdia
em toda parte;
e os corações limpos
e pacificadores.

No natal eu penso
nos que são perseguidos
e nos que são injuriados;
penso nos discípulos de Jesus.

Chego a sentir o sabor
salgado da terra,
a vislumbrar a luz
na noite do mundo.

Penso nas leis de Deus,
escritas com gramática celeste
nas páginas eloquentes
do Infinito; 
penso que são imutáveis e justas,
generosas e boas,
misericordiosas e pacientes
e que nos conduzirão, 
inexoravelmente,
à eternidade.

E me entristeço pela justiça da Terra,
tão necessária,
mas tão pequena.

Penso nas mortes,
na ira e na cólera
e na reconciliação entre os inimigos.

Penso em quanto o egoísmo provoca
separação, adultério,
 escândalo
e em como é possível
evitar tudo isso.

Imagino a verdade pura
do sim
e do não
saindo de todas as bocas,
com simplicidade.

De repente, penso em não resistir
ao mal que me queiram fazer;
em oferecer a outra face,
em dar a túnica e a capa,
em andar duas milhas,
em dar a quem me pede.

Imagino o epílogo dos problemas do mundo
quando todos formos capazes
de amar nossos inimigos,
de bendizer a quem nos maldiz,
de fazer o bem a quem nos odeia,
de orar pelos que nos perseguem e caluniam.

De repente eu penso que não basta
ser mais ou menos;
que há uma perfeição moral
que nos busca a todos;
e que todos devemos buscá-la.

É no natal que eu penso
em dar esmolas
em segredo;
em orar 
escondido,
sem palavras,
apenas com sentimentos,
no recinto íntimo
do coração.

Penso que tenho um Pai Criador
que está em toda Parte;
e cujo nome devo honrar
através da integridade
do meu proceder.

Imagino viver
em Sua casa.

Sinto Sua vontade soberana,
mas generosa,
manifestar-se 
em todas as dimensões.

Sinto-me protegido e alimentado.

Desejo perdoar, e sou perdoado.

Resguardo-me e sou amparado.

De repente, não há mal.
Sinto-me imerso num Reino
único,
poderoso
e glorioso.

No natal tenho um impulso íntimo
de perdoar
a tudo e a todos;
de jejuar;
de jejuar, com alegria,
das futilidades,
do desperdício de tempo,
dos pensamentos mesquinhos,
das palavras ferinas,
das atitudes infelizes.

Não penso em renda,
nem em dinheiro;
não penso na propriedade
transitória
sobre o que quer que seja.

Ao contrário,
sou posse
de um sentimento inexplicável
que vem do Alto,
onde deve estar
meu coração.

Meus olhos acendem luzes,
inesperadas,
de redenção.

No natal não importa
o que hei de comer
de beber
ou de vestir.
Não há os pássaros?
Não há os lírios?
Então por que me afligir?

No natal sou o que sou.
Nem mais alto,
nem mais baixo.

Sou de Deus.
Ele assim o determina.
Busco-o pois.
Não há inquietude.
O resto é o resto.

No natal já não julgo.
Também não sou julgado.

No natal, já não meço,
nem sou medido;
já ninguém tem defeito;
 não reparo.

Vejo um plano perfeito
de revelação
gradativa
da Verdade.

A cada um o que o alimenta,
a seu tempo.

Sinto a Fartura Infinita,
a bondade de Deus:
- aquele que pede, recebe;
- quem procura, encontra;
- as portas se abrem.

No natal vejo os homens,
generosos,
dando uns aos outros
o que gostariam de receber.

Penso nessa trilha
verdejante
e estreita
que conduz à Vida,
já trilhada,
já compartilhada
e que titubeio em percorrer.

Por que a exitação?
Qual o medo?
Não é esta a Boa Árvore?
A dos bons frutos?

Então, no natal, também desejo
ser árvore e dar frutos,
porque esta árvore que veio,
não foi planta ornamental;
não veio para ser paisagem,
mas veio, sim, ser pomar!

Gilberto de Almeida
28/11/2016



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