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quarta-feira, 31 de outubro de 2012

De gabinete

Saiu no jornal
pra alegria do povo
que tinham anunciado
 - pro aquecimento global -
a compra dum novo
ar condicionado!
 
Gilberto de Almeida
31/10/2012
 

O Guardador de Rebanhos - III

(Alberto Caeiro/Fernando Pessoa)

Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo de soslaio que há campos em frente,
Leio até me arderem os olhos
O livro de Cesário Verde.

Que pena que tenho dele! Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas cousas,
É o de quem olha para árvores,
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
E anda a reparar nas flores que há pelos campos...

Por isso ele tinha aquela grande tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como quem anda no campo
E triste como esmagar flores em livros
E pôr plantas em jarros...

O Guardador de Rebanhos - II

(Alberto Caeiro/Fernando Pessoa)

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,

E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...

Creio no mundo como um malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...

O amor de Deus

Viva o amor de Deus
vivendo a vida;
e o amor de Deus,
na vida,
viverá em você!

Eu e Amigo
30/10/2012

Vida e amor

A vida -
assopraram -
a vida é amor -
disseram -
porque a vida é o sopro de amor divino
e, assim, é amar o próximo
o tempo todo!

Eu e Amigo
30/10/2012

A origem do conde Drácula





















Existe a história insana
de um castelo assombrado
num distante condado
da antiga Transilvânia.

E a estranha história é a trama
de um conde agrilhoado
algoz inveterado
da raça mulçumana.

Mais uma triste mácula
da antiga religião:
foi de onde o conde drácula

deixou a perseguição,
decidiu fugir da fácula
e entrou na imaginação.

Gilberto de Almeida
31/10/2012

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Para cima




















Por mais que eu siga em frente,
por mais límpido que pareça o caminho,
se eu continuar em frente,
somente em frente,
somente movendo as mesmas forças
que sempre me impulsionaram para frente,

mas se eu não ousar fazer uma pausa
para ver o que acontece lá fora
e, então, emergir
não enxergarei que,
no fundo
(ou antes, na superfície),
o destino sempre aponta
para cima.

Gilberto de Almeida
30/10/2012

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Quando chover de novo

Um dia, quando chover de novo
e acabar a energida no meu bairro
e eu estiver sozinho à luz de velas,

eu não estarei sozinho à luz de velas.

E a poesia que verei
    não será a folhagem que balança suavemente lá fora;
e a poesia que ouvirei
    não será o gotejar da água que ainda procura seu curso
e a poesia que tocará meu corpo
    não será a brisa que entra suave
e o gosto na minha boca
    não será o gosto sem poesia do vento que venta lá de fora.

Nesse próximo dia, quando chover de novo
e o bairro estiver escuro,

haverá luz que vem de você.

O balançar dos seus cabelos,
o murmúrio carinhoso da sua voz,
o toque da sua alma
o gosto terno do seu beijo.

A poesia, então, seremos nós.

Gilberto de Almeida
28/10/2012

Acostumando

O mais triste da escuridão é que os olhos
se acostumam com ela.

Gilberto de Almeida
28/10/2012

Na minha cidade, após a chuva

Na minha cidade, após a chuva
quando a energia acaba em todo o bairro e as nuvens
abrem caminho na noite escura
para o luar surgir incomodado,

eu abro as janelas para o sereno
e nada escrevo no computador.

Percebo e registro como nunca percebera antes,
neste meu caderninho de notas
que o avião que passa lá em cima
traz até mim uma brisa
que faz dançar a chama
de uma vela.

Gilberto de Almeida
28/10/2012

Com Alberto, em cima dum Outeiro

 

 
Gilberto de Almeida
29/10/2012
 
 

domingo, 28 de outubro de 2012

Cores

 
 
 
Gilberto de Almeida
28/10/2012
 
 

No fim do caminho (ou arrependimento post-mortem)

 
No meio do cominho tinha uma erva
só tinha uma erva no meio do cominho
sativa uma erva
no meio do cominho sativa uma erva.

Nunca mais me lembrarei desse acometimento
na vida de minhas pupilas tão dilatadas.
Nunca nnabis lembrarei que no meio do cominho
sativa uma erva
só tinha uma erva no meio do cominho
no meio do cominho bastava uma erva.
 
Gilberto de Almeida
28/10/2012
 

sábado, 27 de outubro de 2012

O Guardador de Rebanhos - I

(Alberto Caeiro/Fernando Pessoa)

Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor.
Conhece o vento e o sol
E anda pela mã das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr do sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.

Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores em ela dar por isso.

Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.
Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.

Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha
É minha maneira de estar sozinho.

E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),
É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou quando uma numvem passa amão por cima da luz
e corre um silêncio pela erva fora.

Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro
Olhando para o meu rebanho e vendo minhas ideias,
Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.

Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me veem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
e que as suas casas tenham
Ao é duma janela aberta
Uma cadeira predileta
Onde se sentem, lendo os meus versos,
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer cousa natural -
Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.

Vingança da natureza!




Ontem você estava fria.
Deixou-me sentado
debaixo dos meus galhos
e seguiu o seu caminho...
 
Diante de mim, o abismo!
 
Gilberto de Almeida
27/10/2012
 
 

Suando a sapatilha

 
A bailarina é um negócio...
Rala o corpo o dia todo
pra mente evitar o ócio!

Gilberto de Almeida
27/10/2012

 

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Guardando até a tumba

(Vicente Galeano)

Mas quanto espera Deus de nós?
O que será que o Pai nos cobra?
Caber-nos-á missão atroz
que nos mutile em plena obra?
Não creio nisso, porque a voz
de Deus, de amor é que nos dobra
e incita a dar o que se pos-
sa, a dar somente o que nos sobra!
 
Porém, pergunto, quais de nós
fazemos isso que nos cobra
- tão pouco, simples, nada atroz -
o Pai, em tão serena obra?
Mais vezes ouço aquela voz
mesquinha, que urra e não se dobra,
que nada empresta, 'inda que pos-
sa, e entrega à tumba a amada sobra!

Dolores cuidou da casa



Dolores cuidou da casa
pra foto que alguém faria;
Aninha postou no Face
e eu fiz um novo poema
pra, agora, alegrar seu dia!

Gilberto de Almeida
26/10/2012

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Poesias da Vida - XXII

(Juliana Paula Landim)

Quem já viu, sabe;
para quem não viu, vou tentar descrever:

Num caldeirão grande ,os carangueijos são colocados na água fria. Vivos.
Devagarinho a água vai se aquecendo, e os pobrezinhos vão ficando agitados. Claro, querendo fugir.
Uns sobem por sobre os outros.
Há aqueles que tem a verdadeira chance de fugir da morte. 
Chegam bem perto da borda do caldeirão, a ponto de, quase, escapar.

Mas os da sua espécie, o que fazem?
Puxam-nos de volta com suas pinças!
Ninguém foge, ninguém sobrevive!
Todos acabam fervidos vivos!

Pois bem, eu assistia a essa cena horripilante em Itanhaém, quando o telefone - fixo - tocou. (pois é, lá, ainda temos!)

Falecimento de um primo!

E aquela choradeira,
Aquela conversa de por quê tinha que acontecer isso?
Aquele clima de querer agarrar o coitado pela goela e de querer trazê-lo de volta a todo custo para esse nosso mundinho egoísta!

Mas, como poetisa que se presta imagina o que ninguém imagina, o que fiz eu?

Logo imaginei o pobre, tentando, após anos cozinhando, finalmente fugir do caldeirão.
E a parentada e a amigada - provando que esse mundinho de fato é egoísta -
erguendo as pinças pra trazer o tadinho de volta!

Deixa o coitado fugir, porra!
Deixa o coitado viver sossegado fora da panela!
Ou vão querer que todos sejamos fervidos vivos?

Vai com Deus, primo!

Poesias da Vida - XXI

(Juliana Paula Landim)

Eu não usava biquini fio-dental.

Mas, por uma questão de anatomia,
Meus biquinis ficavam fio-dental!
Sabem quando a borda do biquini vira do avesso?
Aí ele entra e fica aparecendo o forro?

Horrorível!

Decidi assumir!

Hoje só uso biquini fio-dental!
Desfilo - assumidíssima - pela praia de Itanhaém.
Com os dois dentões à mostra,
mas agora com charme!

Poesias da Vida - XX

(Juliana Paula Landim)
 
Tô cheia
dessa vida
vazia
de leva
e trai.
 

Remando


Remando
dois índios
já sabiam
em seus espíritos jovens
que a Divindade
criara o mundo
sob eles
somente para que eles pudessem estar ali
remando.
 
Gilberto de Almeida
25/10/2012
 


quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Mente vigilante

(Vicente Galeano)

Na mesma mente austera e pura
que abriga o bem e o amor cordato,
ali, num canto, existe a dura
semente do egoísmo ingrato.
Por isso, a cândida ternura,
da ação, que seja o bom substrato,
pois - vivo! - o mal pensar procura
a chance de tornar-se fato.


Um quarteto e um dístico


Por cem dias se encontraram
somente pra dar "bom dia"!
O que nunca imaginaram
é que a história ficaria.
 
...
 
O mundo está repleto de oportunidades fraternas, amorosas e pacíficas;
a opção é sempre nossa.
 
Gilberto de Almeida
24/10/2012
 
 

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Na balada

Rapazes
loquazes
no ensejo
de um beijo.
 
Audazes,
mordazes;
eu vejo o
festejo.
 
Mas antes
que partam,
farsantes,
 
se fartam
e amantes
descartam.

Gilberto de Almeida
23/10/2012

 

Nas águas límpidas do meu amor



 















Talvez você não saiba,
mas ao caminhar pela vida,
você nada nas águas límpidas
do meu amor.

E elas te envolvem por todos os lados
e te sustentam e amparam
e não permitem, nunca,
que você tropece,

e não permitem, nunca,
que se afogue.

Gilberto de Almeida
23/10/2012

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Sempre que alguém chora

 

 
Gilberto de Almeida
22/10/20112

domingo, 21 de outubro de 2012

Êxtase
























Em êxtase foi
que o incompreensível
perguntou ao impressionante
 
com a impressão
de estar
em incompreensível êxtase!
 
Incompreendido,
o impressionante
respondeu ao extasiado
 
que a impressão do êxtase de incompreender
era um incompreendido e impressionante êxtase
de quem, extasiado, se impressionava com o incompreensível!

Gilberto de Almeida
21/10/2012




sábado, 20 de outubro de 2012

Aqui fora

 


 
Gilberto de Almeida
20/10/2012
 
 

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Compromisso

 
 
No mundo, em rudes camadas,
deixei pra trás essas lou-
cas faltas assinaladas
que o vento testemunhou.
 
Algumas dessas pegadas
o mar das vidas revol-
to - oh! ego - o mar em que nadas,
- bem dito seja - apagou!
 
Agora um anjo (eu mereço?)
implora por que eu avance;
por isso, humilde agradeço.

Não deixarei pra amanhã, se
a benção do recomeço
me é dada, em mais esta chance!
 
Gilberto de Almeida
19/10/2012
 

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Na imensidão



 
Gilberto de Almeida
18/10/2012
 



quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Imperfeição

A imperfeição me persegue
desde o dia em que nasci;
impiedosa ela consegue
rir do tombo em que caí!

Mas, se ouso seguir, entregue,
a estrada que me sorri,
e que, avançando, prossegue
de onde outrora desisti,

eis que surge entusiasmada
a desdita imperfeição
para minar essa estrada:

- eis que me lança no chão!
E minh'alma, ajoelhada
se contrai, na escuridão.

Gilberto de Almeida
17/10/2012

Domínio de amor e união

 
 
Tijolos simples, e se faz
um lar gostoso e acolhedor...
Mas claro, cozidos na paz
da chama serena do amor!
 
E cada tijolo perfaz
o ensejo de, a si, sobrepor
um novo tijolo capaz
de mais conservar o calor.
 
E então verás, se bem pensares
que esses tijolos não são, não,
cozidos de argilas vulgares;
 
são antes o afeto  - é o que são! -
pois fazem das casas, os lares;
domínios de amor e união!
 
Gilberto de Almeida
17/10/2012
 

terça-feira, 16 de outubro de 2012

A vida da minha casa


A minha casa tem vida
e a vida da minha casa tem vida
e a vida da vida da minha casa
tem casa
na minha vida.
 
Gilberto de Almeida
16/10/2012
 
 

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Dois haicais para os professores

O bom professor
semeia a luz que incendeia,
tomado de amor.
 
Aquele que ensina
entoa a voz que abençoa
e o mundo ilumina.
 
Gilberto de Almeida
15/10/2012
 

Nem em pensamento

Às vezes me surpreendo arrebatado,
no pensamento insano, o vão pensar;
pensando se o pensar desenfreado
me levará, quem sabe, a algum lugar.

E penso, assim pensando, atordoado
que o pensamento o mundo faz mudar:
se o pensamento for direcionado
dará, por certo, ao mundo, o que pensar.

Pensar no bem, num mundo mais bonito
quem sabe é um meio de enternecimento
um passo rumo à paz, ante o conflito.

Por isso não cultivo o sofrimento,
nem ódio, nem vingança, nem atrito:
- nisso eu não penso, nem em pensamento!

Gilberto de Almeida
15/10/2012

Arco do Triunfo

 
 
Passagem na rocha esculpida
por força do vento e do mar,
banhou-me, a vultosa surpresa,
de amor, a estranheza do olhar.
 
Portal sobre o berço da vida,
impávido em pleno oceano,
mostrava-me a vasta beleza
de um mundo maior que o humano.
 
E, então, de alma inquieta e aturdida,
achei que a beleza incomum fos-
se Deus, ante a mãe natureza,
que erguera tal arco ao triunfo.
 
Gilberto de Almeida
15/10/2012
 

domingo, 14 de outubro de 2012

Meu coração numa bandeja



A entrega que eu devo fazer
a quem quer que seja
é meu coração
numa bandeja.
 
E menos fazer é tão pouco
que não há grandeza.
E eu me desespero:
pura tristeza.
 
Gilberto de Almeida
14/10/2012
 
 

Siliclone

 
Gilberto de Almeida
14/10/2012

Parados no caminho



Subindo, na longa jornada,
o tempo é raro e contundente,
mas muitos paramos na escada,
não vendo esse engodo premente:
 
- que a vida é um caminho capaz
de, ousada, iludir muita gente:
convida a que olhemos pra trás,
deixando de andar para a frente.
 
Gilberto de Almeida
14/10/2012
 
 

sábado, 13 de outubro de 2012

Com Alberto, na vila Gosau


A Vila Gosau, na Áustria, é um lugar diferente.
Mas digo diferente, querendo dizer belo.
E digo belo, querendo dizer que ao lá chegar, vindo de Haia, quase perdi o fôlego.

Parei a distância. E aquela brisa fria do diminuto vale, banhado pelo sol que àquela hora já dissipava a névoa matinal, me enchia os pulmões de êxtase.

Por isso digo belo, querendo dizer extasiado com a beleza, com o clima, com tudo!

Parecia que Deus vinha erguer, naquele exato instante, somente para que eu e Alberto pudéssemos assistir o espetáculo, o lençol de brumas que, noite adentro, havia de ter tornado fantasmagórica a paisagem. Parecia que o criador nos queria revelar a face esplendorosa de sua criação, como um anfitrião hospitaleiro, insistindo na permanência dos futuros hóspedes...

Comovido pelo encanto da paisagem, num ímpeto de contentamento, tirei o Alberto da maleta! Queria que ele apreciasse a criação, a natureza, tudo de que ele gostava na vida:

- Não é belo, Alberto, não te agrada?

E Alberto, muito gentil naquela manhã, talvez cativado pela brisa leve que lhe acariciava o rosto, explicou:

- Muito me agrada, Gilberto. De facto, muito me agrada!
A brisa refrescante entra pelos meus pulmões e me torna a respiração fácil e sossegada.
O sol, que aquece o corpo, o faz brandamente. Não perturba e não irrita e minha pele se sente confortável com isso.
Piso na relva macia e meus pés podem sentir o contacto com a grama e a umidade do orvalho que ainda não se dissipou. E essa sensação também é agradável.
Enxergo o vilarejo, as casas com seus telhados altos, a torre da igreja, e meus olhos percebem isso com nitidez.
Também vejo o nevoeiro que se move atrás dos pinheirais.

Mas se não mantiveres o olhar tão distante, meu amigo Gilberto, como quem procura enxergar além das cousas, verás que a poucos passos daqui estão umas vacas a pastar, e que ali, com elas, está toda a verdade.

O que achas que elas pensam da beleza de que tu falaste, ocupadas que estão em se alimentar da grama? O que achas que pensam do lençol de brumas que tu mencionaste?

Por certo, nada pensam e nada sabem.
E o fato de não pensarem e de não saberem, meu amigo, não torna as cousas diferentes.
E o que existe, existe e, assim, esses animais vivem, e nós vivemos, independente de como as cousas aparentam.

E esta beleza de que falas, não existe para as vacas que pastam e não existe para mim, que não penso nisso.
Mas sou feliz por saber que o mundo é tal qual é, e o posso sentir como to disse.

Para mim, a vida é como as vacas, que apreciam o capim, porque tem gosto de capim.

Gilberto de Almeida
13/10/2012

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

O filho do jardineiro



Nos jardins de Keukenhof, o filho do jardineiro se enternecia pela tulipa adoecida que segurava nas mãos:
- Meu pai, que bonita, mas está doente!

O pai, simples, mas experiente; inculto, mas sensível; rude, mas amoroso, percebeu a estrela da perplexidade que se acendia no coração do menino e principiou a seguinte história:

- Tulipas, meu filho, são a lembrança da minha vida, mas elas próprias têm memória curta; são lindas de se ver, mas elas mesmas pouco adiante enxergam.

Havia, distante daqui, um local de terras planas, uma imensa campina. Os olhos não conseguiam ver onde terminavam, nem onde começavam. Era cercada de montanhas férteis, mas no solo dessa campina, nenhuma planta crescia, porque ele era árido. Nada por lá brotava.

Segundo contam, na escuridão de uma única noite, um jardineiro, que ninguém jamais viu, nem sabe de onde veio, conseguiu semear tulipas por toda aquela enorme área. Como ele fez isso, é desconhecido. Ainda hoje é mistério. O que importa é que as sementes lá ficaram. Mas, como tudo que antes se tentou plantar naquela campina, não brotaram.

Quem conta essa história jura: o jardineiro, vendo malograda sua esperança, não se conformou! Chorou por cinco dias e cinco noites. Suas lágrimas de desespero, então, caíram como tempestade sobre as montanhas férteis e sobre a campina. E o seu descontentamento caiu como relâmpagos por toda aquela extensão.

Depois disso, meu filho, quando o jardineiro estancou suas lágrimas, como que por milagre, todas as tulipas haviam florescido, todas nasceram maravilhosamente belas, de uma só cor. A alegria desse encantado jardineiro se estampou, então, no céu da campina, como um maravilhoso e duradouro arco-iris.

Do destino do jardineiro, nunca se soube. Dizem que ele subiu ao alto das montanhas e lá vive ainda hoje; se as tulipas perdem a cor ou a vitalidade, como esta que tens em tuas mãos, ele chora, e com seu choro advém nova tempestade; suas lágrimas revitalizam as tulipas e, ao vê-las resplandescer novamente, sua felicidade, invariavelmente, orna os céus com a beleza daquele mesmo arco-iris fulgurante do primeiro dia.

Mas, como eu dizia, as tulipas pouco enxergam, e, também, pouco lembram. Durante todos os anos, desde que nasceram pela primeira vez, nunca lhes faltou a chuva revigorante, nem a paz que a sucede. O que acontece, no entanto, é que, ao vir da chuva torrencial, da tormenta e dos relâmpagos, as tulipas se desesperam como crianças. Gritam, esperneiam e choram. Não percebem que seu choro de desespero faz escurecer ainda mais a noite e aumenta o terror da tempestade!

E, ao amanhecer do dia, já banhadas pela luz do arco-iris, as pobres tulipas, tão belas, mas tão cegas e tão esquecidas, nem se lembram que, desde o princípio, só florescem e se tornam belas quando passam pela tempestade...

Gilberto de Almeida
12/10/2012